A Queda e suas conjecturas (5)

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Os espíritos sabiam os seus limites e não deviam ultrapassá-los; sabiam ser parte de um sistema a ser respeitado, com cuja lei deviam harmonizar-se; sabiam que era dever não ir além dos limites assinalados nem invadir a zona reservada a Deus.

Tudo isso sabiam bem.

Não foi por ignorância que erraram.

O seu ato foi uma revolta consciente, feita, portanto, com plena responsabilidade. Os espíritos podiam ver escrita no pensamento de Deus a norma que lhes era pedido – como seres sempre livres, mas responsáveis – aceitar espontaneamente. Eles não a aceitaram.

Ouviram a palavra de Deus e não quiseram acreditar. E nesse ponto deviam acreditar, pois não conheciam todo o Sistema, já que o conhecimento total só cabia a Deus. Eles conheciam o Seu comando, a norma a seguir, mas uma coisa ignoravam, pelo menos por experiência própria direta: a desobediência faria os rebeldes decaírem, gerando a dor, que eles ainda desconheciam.

Pode-se objetar: ― ”Mas Deus deveria ter dado esse conhecimento”.

Há, todavia, uma imprescindível necessidade lógica, que impede tenha o absurdo lugar no Sistema. Deus não podia tirar do Seu seio tantos deuses iguais a Si mesmo, pois, como tais, seriam senhores de todo o conhecimento.

Ele não podia de Si mesmo, que era o Todo, tirar senão momentos menores que o Todo, dotados, pois, de conhecimento menor e parcial, em face do Seu, o único que podia ser total.

Tudo isto está implícito na lógica do Sistema e constitui, assim, uma necessidade, mesmo para Deus, visto que assim Ele não cai no absurdo e na contradição, respeita a Sua lógica e, por conseguinte, a Si próprio.

Não sendo, então, possível, sem violar a ordem do Todo, conceder um conhecimento direto e total, abrangendo também a zona do desconhecido, Deus comunicara aos espíritos um conhecimento indireto, isto é, advertira a respeito do que poderia suceder.

Por que os rebeldes não obedeceram?

Por que não acreditaram na palavra de Deus?

Eis a culpa. Ademais, um conhecimento completo teria anulado a possibilidade de escolha, a prova, a aprovação, a aceitação por ato de obediência, enquanto a lógica do Sistema exigia uma aceitação livre, espontânea, por obediência e por amor, porque era justamente sobre esses alicerces que se erguia todo o Sistema e essas eram as condições necessárias para que se mantivesse.

O ser era livre e sabia, pois fora advertido. Ele, deliberadamente, não quis crer e obedecer. A escolha não estava vinculada a nenhuma força, porque Deus quis, acima de tudo, a liberdade do ser, para que ele não fosse um autômato ou escravo. Nem era possível que do Seu seio saísse uma criatura que Lhe fosse semelhante, se não fosse livre.

Com a revolta, faltaram ao edifício as bases da obediência, do amor e da ordem, e, onde eles faltaram, o edifício desmoronou. Então a zona de conhecimento que, sendo diretamente inacessível, fora indiretamente comunicada sob a forma de advertência, para ser aceita por fé – zona que os espíritos obedientes conquistaram por crer e obedecer – os espíritos rebeldes foram condenados a conquistar pela dor, através da dura fadiga da reascensão pela evolução. Assim, o erro é reabsorvido na dor, o mal é sanado, o edifício desmoronado é reconstruído.

Por que é difícil a compreensão desse ato de revolta, se continuamente violamos a Lei, embora sabendo que devemos pagar?

Sabemos e, entretanto, nos iludimos, porque somos vencidos pelo instinto dominador e expansionista do “eu”. Como da primeira vez, o mesmo ato repercute e retorna em nossa experiência cotidiana.

E, por ventura, não comprovamos em nossas vidas que do erro nasce a necessidade de remediá-lo, nasce uma dor pela qual expiamos e, expiando, aprendemos a não mais cometê-lo?

Não vivemos nós comprimidos nas malhas de uma lei onde qualquer violação é erro, o qual pagamos com dolorosa experiência?

Mas, apesar de tudo, continuamos a violar, sendo a dor um tributo nosso.

A Lei é perfeita, e quem a cumpre não pode deixar de ser feliz. Se a dor é um fato real, inserido em nossa vida como elemento inseparável e fundamental, isto só pode ser explicado como um erro proporcional à fundamental violação inicial da ordem divina.

A dor é um fato inegável e tremendo, que, cedo ou tarde, atinge a todos, porque é inevitável. Sem a queda, a dor seria uma condenação imerecida, o belo presente dado por um Deus que cria por amor! Seria, porém, um presente de ódio, ainda que nos servisse para pagarmos uma futura felicidade.

Livro: Deus e Universo

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/DeuseUniverso.pdf

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