A Queda e suas conjecturas (2)

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Nas conjecturas, dizíamos que o mal parece uma força negativa, que atenta contra Deus, uma imperfeição devida a um erro Seu e que Ele, em dado momento, encontra no Sistema, apressando-se a remediá-lo.

Se há um outro Deus que limita o primeiro, então cai o conceito de um Deus absoluto e perfeito, restando para o homem a dor, punição de um Deus vingativo. Essa dor deriva da culpa do primeiro rebelde, que certamente não podia ter consciência completa do bem e do mal, pois, se a tivesse, não teria se prejudicado com a revolta e mergulhado na dor.

E como pode um inconsciente ser responsável e punível, se, ao procurar o próprio bem, erra, sem o saber?

E em nome de que justiça, Deus, que tudo sabe, que de tudo tinha presciência, mesmo desse erro, pode condenar um ser que errou por ignorância a pagar com a dor?

Quando uma criança inexperiente cai, a culpa é dos pais, que, sabendo de antemão, deveriam prever a queda; é dos pais, que têm o dever de educar antes de punir e, ainda assim, apenas proporcionalmente à experiência adquirida pelo filho. Quando este não tem conhecimento, os pais não podem punir.

E, então, que deveremos pensar de um Deus que, contrariamente aos seus princípios de amor, bondade, lógica e justiça, comporta-se dessa maneira para com a criatura?

Na procura do responsável pelo mal, pela causa da dor, repugna ao homem admitir e confessar a própria culpa, porque sua vida gira integralmente em torno da seleção animal do mais forte, que é aquele que sabe vencer, não importando os meios.

Então confessar-se culpável é perder; defender-se é necessidade, ainda que, em plano mais elevado, semelhante modo de proceder se reduza a absurdo. Assim, para não acusar a si próprio, chega-se até mesmo a acusar a Deus. É somente a falta de capacidade de raciocínio que permite imaginar um absurdo tão incrível, como o erro e a culpabilidade de Deus.

É aqui o caso de se perguntar se esta atitude mental não constitui uma prova da queda, se ela não deriva da natureza do rebelde e da persistência do originário espírito de revolta.

Tudo isto revela e confirma a perpetuação de uma corrente, de uma força que continua a manifestar-se na sua direção inicial. Imaginar a possibilidade de culpa divina é prosseguir rebelando-se em favor do próprio ―”eu” e contra Deus, o que é culpa de origem, o ponto de partida que torna e retorna na normal psicologia humana de abuso.

Diz-se também: ― “Sim, o homem errou, mas a culpa é de Deus, que o criou assim. Ele deveria criar um ser que não poderia errar”.

Como se vê, persistimos sempre na atitude de quem pretende fazer uma escola para Deus, a fim de ensinar-Lhe a operar, sobretudo segundo as nossas próprias conveniências, que se cifram em gozar sem sofrer. Esta é uma concepção antropomórfica, para uso e consumo exclusivo do homem.

Encontramo-nos aqui nas últimas raízes da dor, nas suas causas mais profundas. Azorragado pela dor, o homem não quer compreendê-la e, para livrar-se dela, sem nada haver compreendido, procura arredá-la de si e atirá-la nos outros, até mesmo em Deus, culpando-O.

A razão pela qual a tantos repugna a teoria da queda é que ela humilha e nos induz a reconhecer os nossos erros.

Livro: Deus e Universo

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/DeuseUniverso.pdf

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