A Revolta (5)

sistema2

Mas Deus, sendo onipotente, não podia impedir a queda e, com isso, todas as dolorosas consequências resultantes?

A onipotência de Deus não pode ir contra a lógica e a ordem da Sua Lei, porque se fosse contra ela, iria contra Si mesmo. Então a nós, filhos da revolta, pode parecer que Deus não seja onipotente.

Deus não podia impedir a queda sem violar o princípio da liberdade. Tinha construído um Sistema de ordem, em que cada impulso tinha uma função. A perfeição não pode ser senão determinística. Sendo perfeito o Sistema criado por Deus, ele se nos apresenta com as características de fatalidade. Num sistema perfeito, não se admitem oscilações de incerteza que derivam do livre arbítrio e da possibilidade de escolha.

Chegamos, assim, a um conceito de Deus que se avizinha da abstração a que está chegando a ciência moderna: ou seja, um Deus inteligência e pensamento, um Deus Lei, que dirige, de dentro, todos os fenômenos.

Então, para não contradizer a Si mesmo, o próprio Deus não podia sair da fatalidade, da concatenação lógica, representada pelo desenvolvimento das forças depositadas no Sistema, nem podia romper os liames que fatalmente prendem e fazem o efeito proporcional à causa.

Cada elemento ocupava no Sistema o seu devido lugar quanto a conhecimento e poder.

A onisciência e a onipotência só podiam pertencer ao Chefe, elemento máximo e centro do Sistema. Cada ser havia recebido todo o necessário, de acordo com a sua posição e função.

Se não quisermos cair no absurdo, temos de admitir Deus como justo. Ora, não se pode negar o fato concreto, por todos conhecido, da presença do mal e da dor em nosso mundo e o fato do quanto custa emergir deles com a evolução.

Se Deus é justo, tudo isso deve ser merecido.

Termos sido criados, sem permissão nossa, para sermos condenados a achar a felicidade através de um caminho tão duro, sem termos merecido essa condenação, não é obra de justiça que possa ser atribuída a Deus.

Com a criação, estabeleceu-se um pacto, como um contrato de consentimento bilateral, entre a criatura e Deus.

A esta Deus dera uma existência individual própria.

Antes da criação, aquela criatura não era criatura, mas apenas uma substância não individuada como criatura. A lógica do organismo nascido pela criação impunha a criatura se coordenar no seio daquele organismo, com todos os elementos componentes, sem o que o Sistema não podia existir nem o organismo funcionar. Era indispensável cada um permanecer no lugar do seu dever.

Como Deus aí executava a sua função suprema de direção, assim deviam estar todos os elementos componentes do Sistema, em suas posições subordinadas. Era lógico e fatal, diante de tudo isso, que a parte que rompera o pacto fosse expulsa do Sistema, pelo fato de numa ordem perfeita, não poder subsistir a mínima desordem.

Isto ocorreu de parte da criatura e o remédio foi possível, isolando a parte doente da parte sã, para esta não adoecer e tudo arruinar. Permaneceu de pé a parte sã, intacta; e a isto se deve que a parte enferma poderá curar-se, reentrando, após a cura, no Sistema.

Mas imagine-se o que ocorreria se a desordem, ao invés, tivesse partido de Deus. Dir-se-á ser isto impossível. E no entanto é o que se pretende, quando se diz que Deus não deveria ter permitido a queda.

Ora, na ordem da Lei, dados os princípios nos quais se baseava, isso teria sido uma revolução e uma tirania. Então Deus mesmo teria forçado o Sistema a uma revolução não periférica, centrífuga (revolta do povo), mas centrípeta (abuso do tirano) – uma revolução ainda pior do que a realizada pelas criaturas.

Isto porque, partindo de Deus, teria feito desmoronar-se não apenas uma parte do Sistema, que se teria podido expelir dele, mas teria feito desmoronar todo o Sistema.

Enquanto no primeiro caso tudo é remediável através de Deus e pelo Sistema, permanecidos íntegros, no segundo caso a queda teria sido irremediável, porque, tendo a rebelião atingido o vértice, teria arrasado o próprio Deus e tudo teria desmoronado irremediavelmente com Ele, sem outra possibilidade de recuperação.

Aí está, pois, o que ocorreu na revolta e na queda.

Então, as posições hierárquicas se emborcaram, e quem estava mais no alto caiu mais em baixo, ou seja, quem estava mais próximo de Deus foi projetado mais longe até o maior de todos os rebeldes, que devia estar mais próximo de Deus e se tornou o chefe do Anti-Sistema. Este último, porquanto entre os maiores, era sempre menor que Deus, e necessariamente maior deve ter ficado também na queda.

Isto significa existir entre os dois chefes, Deus – do Sistema, e Lúcifer – do Anti-Sistema, uma diferença de grau em tudo, significando ser o bem mais forte do que o mal, e, na luta entre os dois, a vitória final só pode ser do primeiro.

Assim, o Sistema permaneceu de pé, representando a possibilidade de recuperação e o ponto de apoio da redenção, que de outra forma seria uma palavra sem explicação e um esforço sem meta. E o Sistema ficou em pé, como o mais forte, como era indispensável para poder reabsorver, em seu seio, o Anti-Sistema. Um desmoronamento absoluto, ao invés de desmoronamento parcial, não teria oferecido nenhuma possibilidade de recuperação.

Pudermos ver, desta maneira, que Deus fez tudo otimamente e não teria podido fazer melhor.

Quanto mais observamos, mais devemos convencer-nos de ser perfeita a obra de Deus.

Nesta verificação, ao invés de conseguirmos demolir a teoria da queda, fomos achando dela sempre novas confirmações.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

Faça seu comentário e participe de nosso grupo de estudos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s