A Revolta (3)

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Tendo criado a criatura de sua própria substância, Deus lhe havia transmitido as mesmas qualidades que lhe eram próprias, e em primeiro lugar a liberdade.

A construção do Sistema baseava-se na ordem e na disciplina, mas numa disciplina espontânea de seres livres e convictos, e não naquela escravidão forçada ou inconsciente de autômatos. Sendo livre a criatura, a obediência devia ser o resultado de uma escolha livre, que concluísse numa adesão espontânea à ordem da Lei, expressão da vontade de Deus.

Sendo livre o ser, ele devia obedecer espontaneamente, mas podia também não obedecer. Ninguém o podia impedir. Permanecia tudo em poder da livre aceitação da criatura.

Tratava-se de uma verdadeira prova de verificação, de modo a só poderem vir a participar definitivamente do Sistema os seres que a tivessem superado.

Os elementos que não tivessem sabido superar o exame, deveriam aprender a lição de forma mais dura e forçada, para atingir o estado perfeito em que tinham sido criados e em que teriam podido permanecer, se tivessem obedecido. Tratava-se como de um segundo curso, mais lento e cansativo, para os mais duros e rebeldes, a fim de os trazer ao porto de salvação.

Doutra forma, como teria podido a bondade de Deus obrigar todos a salvar-se, sem violar a liberdade individual?

Este segundo curso ou queda, não foi portanto, um erro, por defeito, mas uma possibilidade prevista, deixando à liberdade da criatura o pleno direito de escolha. Esse respeito à liberdade da criatura, Deus a tem, porque a vê em Sua própria natureza, e foi elevada a um grau tão alto, que Deus respeita essa liberdade até mesmo no rebelde que quisesse permanecer para sempre rebelde. Só por último destruindo-lhe a individualidade com a perda da substância que a constitui. Somente voltando a substância a Deus, é possível a eliminação definitiva do eterno rebelde, sem violar o princípio de liberdade.

 O ser estava no meio, a fim de realizar sua livre escolha.

Qual das duas forças contrárias teria vencido, tomando a supremacia?

O conflito está no seu auge e o ser envolve-se num turbilhão.

No espírito de disciplina, na consciência da Lei, na obediência a Deus, o ser devia achar a força para resistir ao impulso expansionista do próprio eu. Na livre aceitação do limite, o ser devia achar o freio que o mantivesse em seu lugar.

Ele devia reconhecer, espontaneamente, que era menor diante do Chefe, colocar-se na sua posição devida à escala hierárquica, subordinando-se como menor ao maior, pois isto é indispensável a uma coletividade orgânica.

Eles conheciam esse seu dever, viam que a disciplina era necessária para o bom funcionamento do todo, conheciam a lei que ordenava obediência e sabiam que essa Lei exprimia o pensamento e a vontade de Deus.

Os seres sabiam que esse mesmo “eu” que ansiava expandir-se, como existência individual autônoma, fora um dom de Deus. Esse dom, de existir como “eu” distinto independente, fora-lhes dado gratuitamente por Deus, por um ato de Amor.

Antes da criação existiam como substância, mas desta ainda não havia nascido a sua individualidade, que agora os constituía, tornando-as criaturas existentes como tais.

Para gerá-los, Deus os havia tirado de um estado em que eles, como indivíduos, não existiam, constituindo-os com a própria substância. Para poder fazer isto, fora necessário subdividir-se em tantos “eu” menores, por ato de Amor; a Divindade quisera como que despedaçar-se em tantos infinitos fragmentos, aos quais, por um ato de altruísmo, comunicava a sua existência, o próprio existir. Amor infinito.

Nascidos do Amor e do sacrifício, primeiros elementos da criação, e por isso também primeiros elementos da redenção (Cristo), o qual reconstrói o que estava destruído, esses infinitos seres em que a Divindade se havia pulverizado, tinham o dever sagrado de obedecer, como dívida de gratidão.

Mas, se num primeiro momento, o Tudo-Uno-Deus se havia como que dividido em tantos elementos, num segundo tempo, para não se dispersar, os havia retomado em unidade, reconstituindo-se em forma orgânica, na ordem de um Sistema do qual aqueles elementos constituíam o que, em nosso organismo, são as células. Feito isto, era necessário que eles se mantivessem aderentes à ordem estabelecida, em perfeita obediência à Lei. Da criação nascera uma máquina perfeita. Mas tudo precisava ficar em seu lugar.

Tudo isso pode justificar a agravar a culpabilidade, mas não suprime a possibilidade da desordem, não eliminava os impulsos que constituíam as tentações, instigando-os ao abuso.

Sem dúvida, além do limite imposto pela lei, havia um conhecimento e um poder maior. A criatura não os possuía.

Por que não conquistar, também, tudo isso?

Não eram livres os seres?

Por que não experimentar?

O eu, de acordo com sua natureza, fazia pressão internamente, na direção expansionista. Eis a tentação, o impulso que devia traí-los: uma exageração do eu. Isto foi chamado de orgulho. Era a natureza do seu “eu” que os havia de trair.

Mas os seres não sabiam o que havia além do limite. Aqui residia o perigo. E era justamente esse desconhecido que mais os tentava. Ele estava além de seu conhecimento. Podia ser também uma grande conquista, e por que perdê-la?

É verdade ter Deus, com Sua Lei, traçado o caminho da obediência. Mas Deus teria podido fazê-lo para impedir-lhes esta conquista, reservando-o só para Si.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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