A Revolta (2)

sistema2

Se as criaturas, sobre as quais pesava o perigo de uma desobediência, eram perfeitas porque constituídas de substância divina, elas possuíam uma perfeição relativa.

Eram perfeitas em relação à sua posição na hierarquia, e a função que deviam executar no organismo. Em si mesmas, em relação às suas posições, eram totalmente perfeitas, mas não o eram diante da perfeição de Deus, a única absoluta.

Esta é a consequência lógica da estrutura hierárquica do sistema, o que dava lugar a uma subordinação de posições no todo, tanto como função a executar, quanto como perfeição ou como conhecimento.

Com relação à sua posição e função a executar, as criaturas possuíam em grau perfeito as qualidades necessárias e o completo conhecimento. Mas não possuíam as qualidades do Ser Supremo, e diante de Deus não sabiam tudo. Daí a necessidade da aceitação de algumas partes da Lei apenas por obediência, nos pontos que seu conhecimento não atingia, como acontece com as células dos tecidos musculares que obedecem às células nervosas, embora todas juntas obedeçam ao “eu” central do ser.

Era nessa relatividade da perfeição como do conhecimento, – consequência direta da estrutura hierárquica do sistema – que se aninhava a possibilidade de erro.

As criaturas podiam errar todas as vezes que, fora do campo que lhes fora preestabelecido, se aventurassem nesse espaço desconhecido; todas as vezes que houvessem procurado ultrapassar os limites impostos pela obediência à ordem da Lei; todas as vezes que elas tivessem querido exagerar o próprio egocentrismo, indo além dos limites de suas funções e de seu conhecimento relativo.

Dada a estrutura orgânica do sistema, não podia ser concedido a cada elemento componente o conhecimento absoluto, que só podia caber a Deus.

O mesmo ocorre em nosso organismo, no qual cada célula sabe e executa o seu trabalho e não pode entrar no campo de trabalho e de conhecimento das outras células, de outra natureza, adaptadas a funções diferentes. Cada uma, em perfeita obediência, permanece no seu posto diante do “eu” central, que dirige todo o organismo. Em cada sistema orgânico há necessidade absoluta de todos trabalharem de comum acordo.

Todos os elementos sabiam disso, conheciam o dever e a utilidade imediata da obediência. Mas sabiam também que acima de cada um, acima de si, na hierarquia, havia alguém que sabia mais, até chegar a Deus que sabia tudo. E o egocentrismo em que se baseava a sua individualidade, é, por natureza sua, expansionista e depois centralizador.

Cada um teria podido permanecer no posto a si designado, em sua perfeição e conhecimento relativos, limitados, mas completos em relação à posição ocupada e ao trabalho a executar.

As posições mais altas eram mais ricas de poder, mas também de deveres, e todas igualmente dignas e honrosas. Só assim, todos coordenados, pode existir um belo edifício, onde os menores tiram proveito do poder e sabedoria dos maiores.

A hierarquia não constituía uma injustiça. Representava apenas uma distribuição de funções e de trabalho. Com relação à própria posição todos eram igualmente perfeitos, sábios e poderosos. Obedecendo a essa ordem, todos aproveitavam essa distribuição de trabalho, ajudando-se reciprocamente. Tudo podia assim funcionar com perfeição, se fossem respeitadas as regras estabelecidas.

Podemos constatar quanto sejam verdadeiros estes princípios, porque ecoam em nosso mundo, onde tudo caminharia na perfeição se fossem aplicados. Mas a verdade é haver necessidade absoluta de respeitar a ordem estabelecida, pois ela é indispensável ao funcionamento de qualquer coletividade organizada. Por isso, havia uma lei do Sistema e como primeira condição, o dever de obedecer-lhe com perfeita disciplina.

Mas, se de um lado, existiam elementos que impeliam à manutenção da ordem, de outro lado havia elementos que impeliam em direção contrária.

Se havia de um lado, para o ser, uma zona de conhecimento completo com relação à própria posição na hierarquia e à função a executar, além dessa zona, havia para cada um, também uma zona que em relação a eles era de ignorância, onde a criatura não podia penetrar, por incompetência, falta de conhecimento e aí era possível o erro. A obediência do ser fazia parte da disciplina compreendida no Sistema de ordem, na qual estava construído todo o organismo do Tudo-Uno-Deus.

O ser possuía a sua zona de domínio próprio. Estava assinalado o limite além do qual não podia passar. Além dele estava a zona tabu, proibida, que, por obediência, devia ser respeitada. Isso tudo não constituía uma imposição caprichosa ou irracional do Chefe, mas era uma consequência lógica e necessária da estrutura do Sistema; não era uma prisão ou escravidão do ser, pois este permaneceu tão livre, até lhe ser possível desobedecer: era apenas uma medida de defesa para sua própria vantagem.

Entretanto, permanecia sempre diante dos olhos das criaturas essa zona inexplorada, na qual, em verdade, não se deveria entrar, mas que, de fato, escapava ao seu domínio não se sabendo o seu conteúdo.

Podia representar uma zona de domínio ainda maior e uma vantagem a conquistar.

Esse impulso de autocrescimento, que impelia a explorar o desconhecido para ampliar o próprio domínio, derivava da própria natureza do ser, criado à imagem e semelhança de Deus, como individuação egocêntrica, e portanto tendente ao expansionismo.

Era esse o impulso fundamental do ser.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

Faça seu comentário e participe de nosso grupo de estudos.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s