A Revolta (1)

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Procuremos agora compreender como ocorreu a revolta e como se deu. Começamos aqui com as dúvidas, as dificuldades, as críticas. Aqui principia a revolta contra a teoria da revolta.

Resumamos. Os conceitos desenvolvem-se presos numa concatenação estritamente lógica. Deus deve ser tudo. Se algo existir além Dele, que não esteja em função Dele e que não dependa Dele, então Deus não é mais Deus. Esse algo poderia ser Seu inimigo. E isto destruiria a Sua Onipotência. Nasceria daí um dualismo que destruiria a Sua unidade.

 Se, pois, nada pode existir fora de Deus, Ele teve de criar dentro de Si mesmo. Isto significa ser a criação derivada da própria substância de Deus. Nós podemos criar coisas novas tomando uma substância fora de nós, porque somos uma parte no todo. Mas se fôssemos tudo, teríamos de retirar a substância de dentro de nós mesmos.

Não podemos admitir ser esta substância divina de natureza material, mas apenas espiritual. Ora, a não ser que admitíssemos ser Deus de natureza material, o que não poderíamos compreender e não saberíamos como o nosso universo, constituído em grande parte de matéria, possa ter sido o resultado direto desta primeira criação – a espiritual.

Assim, uma parte de nosso universo, o espírito, pode representar uma derivação direta da substância divina, mas não, de certo, a outra que é matéria.

Entre Deus e a matéria há um abismo. Como preenchê-lo?

Dá-se aqui uma mudança de natureza, só explicável com a intervenção de um fato novo, ocorrido depois, e tão grave que chegou a mudar as características da primeira criação originária-espiritual, nas de uma segunda, que tem qualidades opostas.

Espírito e matéria, com efeito, sempre foram contrapostos um ao outro como dois extremos irreconciliáveis. E eis aqui despontar novamente a necessidade lógica de um fato novo, sem o qual não poderemos jamais justificar, diante de Deus, a constituição de nosso universo, se o considerarmos um produto da primeira criação espiritual.

Como poderia um universo, cindido em tal dualismo, ser a emanação direta de um Deus, cuja primeira qualidade é justamente a sua oposta, ou seja, a unidade?

Eis que a lógica impõe esse fato novo. Qual teria sido ele?

Não pode ter sido o acaso, excluído pela perfeição do Criador e de Sua obra.

Não pode ter sido o capricho de Deus, outro absurdo inaceitável.

O fato novo devia representar a continuação da concatenação lógica, sempre respeitada até agora.

A teoria da revolta e da queda representa a continuação desta lógica. O problema é compreender todos os elementos que constituem o fenômeno. É o que procuraremos fazer agora, nesta segunda parte, da análise e crítica.

Essa teoria da revolta e da queda torna-se, muitas vezes, inaceitável porque não se conhecem aqueles elementos e nasce uma confusão acerca do estado real das coisas. As objeções giram em torno dos temas da perfeição de Deus e de Sua obra, que seriam motivo bastante para que fosse impossível ao sistema desmoronar; dos temas da onisciência de Deus, mediante a qual Ele podia ter impedido a ruína a qualquer momento.

Surge, então, o problema da liberdade do ser, de sua desobediência e o problema de seu conhecimento, acrescentando-se que, sendo esta criatura perfeita, porque constituída de substância divina, ela não podia errar, mesmo porque, conhecendo o futuro, devia conhecer as consequências do seu erro.

Começemos observando as características do sistema, a fim de descobrir os precedentes que podiam constituir o terreno sobre o qual teria podido desenrolar-se a revolta.

Da primeira criação espiritual nasceram muitos elementos distintos. Assim, no seio do sistema eles adquiriram individuação própria, de tipo egocêntrico, à semelhança do próprio modelo, Deus.

Não foi criada a substância espiritual que os constituía, porque esta era a substância incriada de Deus. O que foi criado, como coisa nova, que dantes não existia, foi a distribuição diferente dessa substância, ou seja, as suas individuações particulares, isto é, as criaturas como seres distintos. Devemos a este fato, como todos os seres criados, podermos dizer “eu”, e como tal existir.

Ora, vimos que se essa tão grande pulverização do todo podia ameaçar a sua unidade, o perigo foi vencido com o equilíbrio do processo divisionista com o processo oposto, em virtude do que a primeira criação resultou num sistema orgânico, onde todos os elementos do sistema foram imediatamente enquadrados numa ordem e disciplinados por uma lei.

Deus tornou-se centro do sistema e permaneceu situado no topo da hierarquia. Esse lugar lhe cabia de pleno direito.

As criaturas, que lhe deviam a vida, não podiam existir senão em função Dele, devendo-lhe perfeita obediência. Estas eram, logicamente, as bases nas quais devia apoiar-se a vida de todo o sistema, tanto quanto de cada elemento componente. Estas eram as condições indispensáveis para que a criação não se desfizesse em desordem, despedaçando-se no caos.

Então, impunham-se dois imperativos categóricos: primeiro, a presença de uma lei emanada de Deus, reguladora da ordem; segundo, absoluta obediência a essa lei por parte da criatura.

Encontramo-nos logo diante da necessidade lógica de uma obediência absoluta.

A necessidade da colaboração numa ordem perfeita era tanto maior, quanto o sistema era perfeito e devia funcionar na perfeição.

Que desastre, pois, resultaria à mínima desobediência e desordem!

Mas seria possível uma desobediência?

Começam aqui as objeções.

Num sistema perfeito, composto de elementos perfeitos, não é concebível uma possibilidade de erro.

O grau de perfeição que a ordem possui, devia torná-lo invulnerável, pois estava isento de qualquer defeito. Como tal, o sistema devia permanecer inviolável, acima de qualquer risco.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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