Deus Operador

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Tendo assim feito da Divindade o máximo conceito que nos é possível, seres situados no relativo, vejamos agora como Ela operou na criação. Neste Seu operar, devem reaparecer as Suas qualidades, pois Deus operou de acordo com elas, que constituíam a Sua própria natureza. Dessa forma, podemos imaginar como foi executada a criação, ou seja, aplicando-lhe as características próprias de Deus.

Eis então como, mediante simples imagens, podemos fazer uma representação mental de como ocorreu a criação.

Em ilimitada planície deserta, onde nada havia, nem uma casa, nem um fio de erva, nem ser algum, uma planície tão igual que impossível fosse ali estabelecer qualquer ponto de referência ou de distância, nesse espaço incomensurável havia um bloco imenso, sendo ele a única coisa que podia existir.

Só ele existia ali. Além dele, nada mais havia, sendo tudo o que podia existir ali. Dizemos “só”, porque vivemos em relação com outros seres, mas não estava só, pois compreendia dentro de si todos os seres. Uma parte pode permanecer isolada se lhe falta qualquer outra parte, mas não o pode quem abarca tudo dentro de si, porque dessa forma, faltam-lhe, do lado de fora, pontos de referência para poder estabelecer a própria solidão em relação a eles.

Assim sendo, ele não podia olhar para fora de si, pois fora de si nada mais havia. Olhava então para dentro de si. Sendo este bloco, uma unidade, feito não de matéria, mas de pensamento, esta sua auto-contemplação, representava a consciência que possuía de sua existência, consistindo num pensamento único, sintético, homogêneo, indiferenciado, imóvel, concentrado em si mesmo.

Mas eis que, em dado momento, nesse estado de autoconsciência imóvel, se inicia um movimento de descentralização, pelo qual esse pensamento se torna multíplice, analítico, diferenciado, imóvel, resultante de muitos pensamentos diferentes.

Esses pensamentos diversos são as criaturas nascidas da primeira criação, feitas de puros espíritos.

Isto não significa, porém, ter sido perdida a unidade do pensamento de origem. Ao contrário, a necessidade dessa unidade permanecer íntegra – sem o que teria desaparecido o supremo “eu” da Divindade – impôs também a necessidade dessa multiplicação ocorrer em sentido orgânico.

Nesta primeira criação não podia nascer uma multidão de elementos iguais, simplesmente se somando no todo, mas apenas um sistema, um verdadeiro organismo do qual fossem parte integrante, como hierarquia de posições e distribuição de funções, como é necessário em todo organismo ou sistema.

Satisfaz a nossa mente e nos convém pensar que o processo dessa criação tenha sido regido por uma concatenação lógica, sendo esta uma das qualidades da Divindade. Eis como aparece logo, necessariamente, em virtude dessa lógica, a ideia do Sistema, ou seja, que a criação não produziu apenas uma simples multiplicidade, mas um verdadeiro organismo.

Daí nasce a necessidade de admitir-se a presença de uma ordem, e portanto de uma lei que discipline os movimentos de todos os elementos constitutivos do Sistema, lei que representa a continuação da autoconsciência da Divindade que, como pensamento central, situado no topo da hierarquia, a dirige e, dessa forma, dirige todo o Sistema.

Só assim o Tudo-Uno-Deus podia, apesar de tão grande transformação, permanecer idêntico a si mesmo.

Se Deus era Tudo, é lógico que a criação não podia ocorrer fora de Deus, mas só dentro Dele. Mas era necessário, também, que isso tudo não alterasse, de nenhum modo, a unidade de Deus.

Podemos imaginar o estado antes da criação como um incêndio, com luz e calor, igual em todos os seus pontos; e, após a criação, como o mesmo incêndio organicamente dividido em muitas centelhas. Cada criatura é uma centelha, da mesma substância do fogo de origem, todas juntas continuando a constituir elementos de um todo que permanece, após as transformações, idêntico a si mesmo, tal como era antes.

Eis então que, ocorrida a criação, Deus se nos apresenta como uma unidade orgânica constituída por muitos elementos diferentes, mas mantidos ligados pelo estado orgânico, no qual se transformou o Todo, assim como todas as células de nosso organismo físico são mantidas ligadas por seu estado orgânico, sem o qual elas, também consideradas como seres separados, não podem viver.

Daí a absoluta necessidade dessa concórdia e dessa unidade que rege o sistema, sem as quais tudo desmorona. Dessa forma, é fácil compreender o que pode ocorrer à mínima desordem.

O fato de cada elemento possuir agora a sua individualidade separada, qualquer menor egocentrismo seu, à semelhança daquele egocentrismo máximo de Deus, torna possível ocorrer uma desordem tão logo falhe a obediência à disciplina imposta pela lei. Por isso há necessidade absoluta de todos os elementos permanecerem ligados, conjuntamente, no mesmo estado orgânico do Sistema, sem o que desmorona a unidade do bloco, no qual permaneceu o Tudo-Uno-Deus, tal como era antes.

Podemos imaginar o estado de origem como o de uma estátua de mármore igual em todos os seus pontos. Um dia esse mármore se transforma em uma porção de células vivas, hierarquicamente disciplinadas, governadas por uma lei à qual é desastroso desobedecer. Elas se reagrupam em tecidos e órgãos e desempenham determinadas funções, das quais depende a vida do organismo, tanto quanto as suas.

Assim ocorreu a criação e nisso consistiu. Só nesta segunda parte, de análise e de crítica, podíamos observá-la mais detalhadamente. E para nos tornarmos mais compreensíveis tivemos de nos apoiar em representações concretas. Trata-se de imagens torcidas e opacas, porém só estas pode o nosso mundo oferecer-nos.

Temos de admitir essa criação, porque representa o terceiro momento da Trindade, que sem isto permaneceria incompleta. Trindade composta de três pessoas ou momentos, ou seja: Espírito (a concepção), Pai (o Verbo ou ação), Filho (o ser criado).

Isto quer dizer que a Divindade, esgotado o processo da criação, se achou constituída no estado do Filho, ou unidade coletiva ou sistema orgânico, em que permaneciam íntegros os dois estados precedentes.

Permanecia o Espírito ou concepção, porque subsistira na obra o plano geral e a lei que lhe disciplinava o funcionamento.

Permanecia o Pai ou a ação, porque aquela lei era também vontade de realização, não apenas norma, mas também poder de atuação.

E no estado orgânico do Sistema, a multiplicidade dos elementos fundidos na ordem da Lei, constituía uma unidade coletiva, em que Deus permanecia o Tudo-Uno-Deus.

Era necessário esclarecer até o fundo, agora que podemos analisar o fenômeno, estes conceitos que representam o seu ponto de partida, porque se não os tivermos compreendido, não poderemos tampouco compreender depois o fenômeno da revolta e da queda, nem os fatores já presentes que o possibilitaram e nem o modo como o processo, dadas as suas premissas, se desenvolveu com logicidade férrea.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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