O ser despedaçado

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A morte e a dor são o tributo de todas as formas periféricas de vida e, por conseguinte, também da vida terrena.

Em nossa zona de vida, a corrupção do sistema acarreta a impossibilidade da afirmação do “eu sou”, que constitui a existência, a não ser pela negação intermitente desta, que é a morte.

Não se pode chegar ao ser, senão percorrendo o não-ser em etapas inexoravelmente ligadas à própria inversão, qual se desejou. Mas persiste o ser, que não pode morrer, porque é eterna centelha divina. Não pode morrer definitivamente como tal. Mas, entretanto, se deve viver, só pode fazê-lo de maneira fragmentária periodicamente submetido ao retorno agoniante da morte e do nascimento.

Eis a vida, originariamente una e agora assim despedaçada. Essa precariedade, contudo, é a qualidade que lhe faculta a evolução, como único meio para que de cada vez ganhe em perfeição. O dano é, assim, ao mesmo tempo, remédio.

Eis o doloroso ciclo incessante da vida e da morte, das sucessivas reencarnações, de que só a evolução espiritual nos poderá libertar. Na Terra, o princípio do “eu sou” (vida) mesclou-se ao do “eu não sou” (morte).

A Lei impõe que a unidade fragmentada se deva refazer laboriosamente, através da dolorosa operosidade  da existência: nascer e morrer, para renascer e tornar a morrer. Esta é a lei atual.

O amor, igualmente, nessa zona do ser assumiu a cor dominante.

Como se vê, há uma razão profunda pela qual o parto deva ser doloroso, mas não de ordem apenas fisiológica. É que a gênese criadora não somente tem de dar uma vida fragmentaria, mas também de cumprir-se em posição negativa de dor, isto é, às avessas do originário em Deus, em que a gênese é alegria.

E o pouco de prazer que ficou no amor sexual não passa de uma ruína, de um fragmento uma antecipação da originária felicidade de criar em Deus.

A alegria vem antes, e a dor depois, por isso mesmo que aqui continua a repetir-se o motivo originário da inversão, pelo qual a divina alegria de criar foi substituída pela dor da queda. A dor é ulterior, como uma traição, tal qual se deu com a revolta e segundo já vimos ser a regra na periferia, reino da ilusão, onde o mal nos embala primeiro com a miragem do prazer, para depois nos abandonar em um corpo que, apesar de mantido unicamente por este último raio da divina emanação, corrompe-se e não resiste.

O nosso mundo, tão ávido de prazeres, mas ignorante na arte de saber buscá-los, não imagina absolutamente que o místico, em seus amores espirituais para com Deus e Suas criaturas, é o mais sábio e o menos iludido entre os gozadores.

Eis a grande condenação do ser decaído: só poder participar da divina alegria de criar, através da dor. “Crescei e multiplicai-vos”, mas não para gozar, como crê o mundo, mas para atravessar a dor e assim percorrer o duro caminho da ascensão.

Cresça e se desenvolva a vida! Esta foi a lei que ficou, mas ralada na dor!

Sede falanges, atados a roda da vida e da morte e que o ser aceite o prazer sexual, que o convida a suportar as agruras restantes!

Deus bendiz a união dos sexos, mas. . . existe o grande “mas”, pelo qual o homem inconsciente não suponha que, ao casar-se, vai ao encontro de alegrias da vida, mas sim do sacrifício de evolver e fazer evolver.

O verdadeiro conteúdo do matrimônio é levar o amor a evoluir da sua forma egoísta, que pede prazer, à altruísta que, em dor e tormento, dá por amor não a si, mas aos outros. E desta forma que o amor se avizinha de Deus, elevando-se do plano animal à função evolutiva de reconstrução espiritual do ser.

Quem cria apenas para o próprio prazer, mergulhará cada vez mais na dor, cada vez mais repelido para a periferia do sistema.

Quem usar a inteligência, centelha divina, para fraudar a natureza, acreditando que espertamente lhe possa furtar prazer, inverter-se-á ainda mais dentro do sistema, e agora sabemos o que isso significa.

Eis como, do grande movimento da criação, chegamos aos casos da vida que mais de perto nos tocam. Vemos, assim, de que longínquas origens cósmicas provém a lei moral, que regula a nossa conduta de cada dia.

Livro: Deus e Universo

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/DeuseUniverso.pdf

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