Queda e Reconstrução do Sistema (1)

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Estamos diante do terceiro aspecto da esfera do Tudo-Uno: o de Deus-Filho. No segundo momento, o Verbo quis e agiu; fez assim de si mesmo um sistema orgânico de seres. Este é o que a visão agora nos oferece.

Aqui Deus nos aparece como uma infinita multidão de seres, isto é, uma multiplicidade de individuações do ser, a qual não significa, de forma alguma, fracionamento ou dispersão da unidade, porquanto as criaturas surgiram todas organicamente coordenadas, funcionando de acordo com a Lei, ou seja, com o pensamento de Deus, e a Ele todos se subordinando, como centro do Sistema.

Sendo as criaturas centelhas de Deus, deviam possuir as qualidades do fogo central, tendo em primeiro lugar a liberdade. Os filhos de Deus só podiam ser livres e conscientes, aceitando permanecer na ordem por livre adesão.

O organismo da Divindade não podia ser constituído de autômatos, de escravos inconscientes. Mas, sendo os elementos constituintes hierarquicamente coordenados num organismo, não podiam ser idênticos ao Centro, ao qual, no que respeita o conhecimento e poderes, tinham de ficar subordinados, como num regime de ordem e harmonia é necessário para tudo o que é menor e derivado.

A coordenação dos elementos componentes do organismo do sistema, implicava, como primeiro dever, na ordem soberana, o da obediência.

Num sistema de ordem, é necessidade imprescindível e lógica que a liberdade seja condicionada a ele, e não lhe seja lícito ultrapassar limites, além dos quais lhe seria permitido subverter aquela ordem, chegando, assim, neste caso, a atentar até contra a unidade do Tudo-Uno-Deus, em cujo seio se move e de cujo sistema faz parte. A primeira condição, pois, a que deve submeter-se a liberdade é o dever de manter-se em perfeita adesão à Lei, que exprime o pensamento e a vontade de Deus.

Todavia, a liberdade é tal, que contém a possibilidade do arbítrio e do abuso, significando poder quebrar a unidade orgânica do Sistema.

Neste caso, portanto, o ser livre podia não querer mais mover-se harmonicamente no Todo, produzindo assim, um tumor canceroso no seio do próprio Sistema, pronto a alterar a estrutura sadia. Era necessário então que a liberdade não se exagerasse, ultrapassando os limites da ordem e da obediência, mas permanecendo, ao invés, subordinada em tudo à supremacia do Centro. Se essa infração ocorresse, a desordem nascida no seio da ordem, produziria uma fratura, pelo menos na parte inquinada, um emborcamento e uma queda.

Mas como poderia acontecer fosse o Sistema, obra de Deus, tão imperfeito que pudesse desmoronar a cada momento?

Não. Ao contrário, era tão perfeito, podendo até desmoronar sem dano definitivo, justamente por isso podia conter, deixada à mercê da livre vontade do ser, a possibilidade de uma queda. Se isso tivesse ocorrido, é porque o Sistema era perfeito a tal ponto, que teria tido a possibilidade de ressurgir de sua queda.

Esta implícita capacidade de automedicação, apta a resolver qualquer crise, tornava inócuo, em última análise, esse perigo e erro.

Não se tratava, pois, de imperfeição. Ao contrário, na perfeição do Sistema, tudo estava previsto, até a possibilidade de uma desordem e de uma queda; por isso, foi deixada nas mãos do ser a escolha entre obediência e a desobediência, com a possibilidade de uma desordem e uma queda. Se isto acontecesse, tudo se curaria por si mesmo, embora passando por outros caminhos, e voltaria ao primitivo estado de perfeição, se bem que através de uma nova experiência, sempre útil e justa, apesar de árdua.

Mas, pode objetar-se ainda, se os espíritos eram livres e felizes na ordem por que deveriam ter-se sentido atraídos para uma desordem tão desastrosa?

O que os açoitou, foi o mesmo princípio fundamental do ser, próprio também a eles: o egocentrismo. Este representa o princípio unitário, que rege a existência de cada individuação. Seu modelo máximo é Deus, centro em trono do qual tudo gira e para o qual tudo gravita. Egocentrismo não quer dizer egoísmo. Este é um egocentrismo exclusivista, para vantagem própria e desvantagem dos outros, ao passo que o egocentrismo pode fazer centro de si, como até no caso máximo de Deus, sobretudo para o bem dos outros.

E então aconteceu justamente que, em sua liberdade, parte dos espíritos, em vez de se deixar possuir por este egocentrismo altruísta e orgânico – que a Lei quer em sua ordem – deixou-se atrair e preferir um egocentrismo egoísta.

O egocentrismo é, por natureza sua, uma afirmação, e como tal tende a afirmar-se cada vez mais, se o seu impulso não for equilibrado por um contra-impulso, exercitado pela disciplina que o ser se impõe, em respeito à ordem e em obediência à Lei.

Mas, se esse egocentrismo egoísta pode ter parecido como uma vantajosa expansão do eu, ele representava o princípio subversivo e anti-orgânico, que reaparece no câncer, no organismo humano.

Rompeu-se, dessa forma, a harmonia hierárquica do Sistema, na qual toda individuação existe, como acontece com as células no corpo humano, que vivem umas em função de outras, sem o que, desmorona a unidade orgânica.

Num sistema orgânico e hierárquico, as dimensões de cada eu são, para cada ser, medidas pelo valor e pela função ali representada; e cada individuação deve, para não se alterar a harmonia da ordem, manter-se sempre nos limites das dimensões relativas a esse valor e a essa função.

Cada expansão do eu que exagere as devidas proporções, tende a emborcar o Sistema, pelo menos no ponto contaminado: emborcar, isto é, inverter, porque  num sistema equilibrado, o desenvolvimento exagerado para além da ordem, leva a uma contração correspondente; cada expansão indevida, é corrigida por uma diminuição proporcional.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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