Método analítico-intuitivo

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Quando já houvermos registrado, por escrito, os resultados da inspiração e tiver cessado o lampejo, do qual derivam aqueles conceitos, buscam-se provas, entrando na fase de controle racional da intuição. O nosso pensamento põe-se a funcionar com engrenagens diferentes, pondo-se em relação diferente com o existente, não mais de espírito, interior, por visão, mas de  sentidos, exterior, por contato material.

Entro pois nesta segunda fase retomando o pensamento já atingido pela inspiração e o analiso. Eu mesmo procuro as provas, com os meios racionais e culturais, porque só quando tiver transformado o pensamento intuitivo, nesta segunda forma, então poderei apresentá-lo aos modernos homens da ciência, os quais só tomam a sério o pensamento quando este se apresenta assim revestido. Nesta segunda fase, não é mais a inspiração que trabalha, mas apenas as forças da minha pequena inteligência humana.

Entretanto, esta não é a investigação comum, da qual se diferencia. Nesta pesquisa, não me submeto à orientação dada pelos livros. Ela já me foi dada pela inspiração e só esta me pode dar. À ciência eu peço apenas o fato, o fenômeno que não está em minhas mãos, o qual a ciência conhece bem, porque é a ciência dos fatos e dos fenômenos; peço-lhe apenas os pormenores, pertencentes à sua análise, e não fornecidos pela visão sintética de conjunto.

De tudo isso, o leitor poderá compreender como os meus livros nascem de uma profunda elaboração. A fonte primeira e maior é a inspirativa. Representa a origem de onde nasce tudo. Se mais tarde, leio algo a respeito do argumento tratado, isto é só depois, para conhecer o ponto de vista da cultura contemporânea, a respeito dos temas desenvolvidos.

Compreendida a gênese do pensamento a ser aqui seguido, vamos proceder à exposição dos princípios fundamentais do Sistema.

 Tudo em nosso mundo, se baseia numa contraposição de conceitos opostos, que se completam como dois polos do ser; são contrários, mas só podem existir um em função do outro; lutam, mas justamente na luta se escoram mutuamente, e um não pode dispensar o outro. Ora tudo isso é dado pelo primeiro modelo Sistema/Anti-Sistema, modelo que aparece reproduzido em todas as formas do ser.

Acontece então que não sabemos conceber o infinito e o absoluto senão como o estado inverso ao nosso estado de finito e relativo. De modo que o conceito que, em nossa posição de Anti-Sistema, conseguimos formar do Sistema, é para nós, negativo; é assim em relação a nós, apesar de tratar-se da coisa mais positiva que pode existir.

Vejamos um caso mais particular. Poder-se-ia dizer que o ateísmo representa uma das provas da existência de Deus. O ateísmo é uma negação que presume a afirmação, e que só em função dela pode existir. A negação não só presume e prova a afirmação, como faz parte de dois conceitos que se condicionam reciprocamente, de modo que um não pode existir senão em relação ao outro.

O modelo dos dois opostos, Sistema e Anti-Sistema, nós o vemos reproduzindo também nos dois termos contrários: espírito e matéria. E instintivamente o homem vê Deus e o paraíso, isto é, o Sistema, no céu; e nas vísceras da terra, afundado na matéria, o inferno. Por que isso?

Porque a queda foi do estado de espírito ao estado material, através da energia. Aqui a ideia da queda é reproduzida em sentido espacial, do céu para a Terra. Na concepção de Dante, Lúcifer se precipita do céu ao inferno, aprofundando-se até o centro da Terra, onde, no ponto mais longe do céu, permanece a habitação do maior rebelde a Deus. E as subidas ao céu são concebidas em sentido contrário.

O purgatório dantesco é o monte da ascensão, subindo pelo qual, de plano em plano, se chega ao paraíso. Esse inferno e purgatório exprimem exatamente, em sua posição inversa, o primeiro, cavado nas vísceras da matéria, o segundo, emergindo de seu seio, as duas metades inversas e complementares do ciclo da queda, constituído pelo período involutivo (queda no inferno) e pelo período evolutivo (purgatório), da purificação que leva a Deus. Sob outra forma, achamos aí a substância da visão que expusemos.

O inferno dantesco possui todas as qualidades do Anti-Sistema: trevas, dor, ódio, mal etc.

O paraíso dantesco possui todas as qualidades do Sistema: luz, felicidade, amor, bem etc.. Também no inferno há certa ordem e disciplina. Mas a ordem é coagida, a disciplina é a do escravo algemado; enquanto que no paraíso a ordem e a disciplina são livres e por convicção. Isso corresponde aos conceitos de determinismo, a que está presa a matéria, e de liberdade, primeira qualidade do espírito.

Explicam-se, dessa maneira, muitos modos de conceber, que encontramos nas várias religiões, e as formas com que os estados de além túmulo são representadas por elas. Explica-se assim a contraposição entre espiritualismo e materialismo, o primeiro concebido como elevação, o segundo como negação.

O materialismo nasceu como corretivo e reação ao espiritualismo abusado das religiões, como liberação e renovação, a fim de passar das velhas estradas às novas, como salvação da cristalização dogmática, a fim de que o pensamento não permanecesse aí, morto dentro delas, mas revivesse, continuando a avançar.

Só num primeiro momento é que a ciência apareceu como inimiga da fé, quando se manifestou como reação de cura do pensamento humano, o qual corria o perigo de permanecer fechado em alguns caminhos sem saída. Mas depois a ciência materialista não podia evitar de caminhar, de iluminar-se mais, de construir; porque observando honestamente os fatos e os fenômenos, tinha que encontrar-se com o pensamento de Deus que os dirige, e chegar a ouvir a voz de Deus que fala neles.

Pôde assim aparecer a verdadeira função positiva criadora, própria desse regresso a matéria, ou seja, a de poder tomar um impulso mais forte, a fim de poder ascender mais para o alto, no caminho da evolução para o espírito. Fato que só agora começa a delinear-se mas, que representa o verdadeiro sentido, o valor e o futuro da ciência.

Livro: O Sistema

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/OSistema.pdf

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