Ubaldi e Kardec

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Caros amigos,

Há cerca de dois meses que estou percorrendo a vossa grande Terra e, durante esse tempo, tive a oportunidade de constatar um acolhimento entusiástico às minhas humildes palavras. Eu me apresso, porém, a vos afirmar: não sou eu a quem deveis louvar. Eu sou, simplesmente, o instrumento; eu recebo; nada é de minha criação.

Se eu pudesse, nesta noite, dar-vos uma ideia concreta da Voz que me fala, eu vos apontaria; em primeiro lugar, a imagem que está no quadro aqui exposto. (reprodução do Cristo bor­dado pela Senhora Alexandra Herrmann). Esta é a figura que eu sinto presente dentro de mim sem poder vê-la fisicamente e a sua expressão dá-me, neste momento, a sensação viva da sua presença neste recinto.

O assunto da conferência que será lida, a seguir, prende-se muito ao grande problema da reencarnação — doutrina que aqui é aceita por todos e com grande fé — mas que na Europa é assunto controverso.

Eu me comprometo, no próximo livro, a demonstrar cien­tificamente esta grande Lei e essa demonstração será tão convin­cente que será aceita, sem discussão, por qualquer mente capaz de raciocinar, assim como acontece com a demonstração do teorema de Pitágoras — ou outros semelhantes — cuja evidência é absoluta.

A primeira concepção, que me nasceu no cérebro, sobre a reencarnação foi há muito tempo. Eu tinha, aproximadamente, 26 anos e vivia em dúvida completa, pois, já golpeado profunda­mente pela dor, não conseguia atinar com as suas causas. Eu a atribuía aos erros cometidos por mim, ou por outros, mas isso não contribuía para eliminá-la. Investigava a filosofia, os vários siste­mas filosóficos, porém, da mesma forma, não conseguia alívio algum. Estudava o espírito das religiões e, todavia, também isso não proporcionava consolação.

Então, por acaso — digo acaso, mas por certo era obra da Providência — caiu em minhas mãos o Livro dos Espíritos de Allan Kardec. Eu era jovem, desorientado, não tinha, ainda, pas­sado pela experiência dos grandes problemas da vida. Li com gran­de interesse e vos confesso que, em certo ponto, exclamei: Achei!… Eureka! poderia ter eu repetido, encontrei, encontrei finalmente a solução que eu procurava e que me esclareceu!

Ela foi a primeira semente que deu origem ao meu adian­tamento espiritual e daquele dia em diante foi-se tecendo a trama luminosa do esclarecimento de tal forma que, ampliando-se, ele pe­netrou a ciência, a filosofia, a religião, os problemas sociais e os problemas de todo o gênero.

Devo, entretanto, confessar-vos precisamente aqui, nesta noite e neste local, que a Allan Kardec devo a primeira orientação e a solução positiva do problema mais complexo que, mais de per­to, me interessava, considerando minha condição de ser humano.

Com grande prazer recebi esta primeira orientação. Sem ela eu deveria trabalhar, quem sabe, vinte, trinta anos, ainda.

Este primeiro jato de luz me veio há quarenta anos pre­cisamente e hoje esta luz se completa no que eu ofereço, como eu disse antes, não criado por mim, mas recebido em consequência do esforço desenvolvido para ampliar o campo de aplicação daquela grande ideia, alcançando o seu objetivo final concretizado nos setores social, religioso, filosófico etc.

E é interessante observar que, em consequência disso, eu, sem o saber, era espírita há quarenta anos. Eu vos afirmo isso porque na Itália não há espíritas e vindo ao Brasil não fazia ideia, não conhecia nada deste grande mundo que eu encontrei aqui e que me atordoou pela sua organização, pela sua fé, pela sua vastidão.

Na Europa não temos ideia disto. Eu estava, portanto, e estou convosco há muito tempo. Somente hoje vejo e reconheço que em certa parte do mundo, longe da Europa, existe a mesma fé que eu já havia encontrado sozinho.

Ora, o fato de tê-la encontrado sozinho, ou de recebê-la isoladamente é a prova evidente de que todos estamos dentro da Verdade. Eu não recebi esta verdade de uma Escola ou de uma Doutrina. Eu a senti nascer em mim. Esta concordância que coisa prova? Que a verdade é una, una para todos, assim como na Ter­ra qualquer indivíduo que abra os olhos vê que o Sol existe igual para todos. Isto foi uma grande prova para mim e creio que ela o possa ser, também, para vós.

Esta noite é a última em que falo em São Paulo. Andei por vários Estados. Fui até Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais. Estive em cerca de vinte cidades no Estado de São Paulo. Encontrei em toda a parte uma grande fé, uma grande assistência social. Bela realização! Isto me entusiasma! Encontrei nos lugares de cura não só a ciência, mas sobretudo, a fé. Agora, curar os do­entes não só com os processos materiais, como se faz na Europa, mas aquecendo a alma deles com o Evangelho, explicando-lhes a causa das suas dores e ensinando-lhes o verdadeiro caminho para superá-las, partindo, em primeiro lugar da alma e não consideran­do, como o faz a ciência materialista moderna, o nosso corpo como um agregado de células — ou como o corpo de qualquer animal — isto é grandioso! Admirei esse fato! E falarei na Itália e na Euro­pa contra o interesse materialista que lá se imprime a todas ou a quase todas as instituições de cura dos doentes de todas as espécies.

Esta noite, então, encerro o ciclo das minhas conferências e vos transmito o meu adeus.

Daqui a pouco — um mês mais ou menos — voltarei pa­ra a Itália. Lá encontrarei o inverno. Voltarei ao meu quarto soli­tário em Gúbio, onde eu tenho vivido muitos anos, onde eu escre­vi muitos livros que hoje vós ledes. Naquele quarto, em um ângulo, existe uma pequena mesa onde eu penso, recebo e escrevo sozinho. Encontrarei a solidão e o frio. E também tristeza — uma grande “saudade” como vós dizeis — uma grande nostalgia, uma grande vontade de vos rever e de vos abraçar. E espero que este meu de­sejo tão intenso precipite o momento em que eu possa realizá-lo.

Observai, portanto, que a minha gratidão pela vossa bon­dade é imensa. Vós me recebestes com grande amor, e eu o senti. E restitui o abraço —com o qual vós me enlaçastes — com o meu abraço fraterno. Desejada estreitar-vos em meu coração, um por um.

Mas como fazer se sois tantos!… Todavia, espiritual­mente o faço, porque com o espírito se pode fazê-lo.

Retirado naquele quarto, escreverei outros novos volumes mas com uma fé mais intensa, porque hoje eu sei que um povo inteiro me compreende e esta compreensão me ajuda. Antigamente eu escrevia sozinho, sozinho com a “Sua Voz” sem auxílio dos meus semelhantes, porque na Itália eu não sou muito conhecido.

Estas coisas lá não são tão compreendidas. Pratica-se um espiritismo diverso, um espiritualismo com outra orientação que, no momento, não vos posso explicar. Eu sou sozinho na Itália. Mas, aqui, o vosso afeto me enterneceu tanto que eu escreverei com ar­dor redobrado; a minha palavra será mais quente, mais potente.

Devo datilografar o meu 10º volume, Deus e Universo, ele é de uma potencialidade que me aturdiu, me esmaga pelo poder da linguagem super-científica. É literatura de caráter teológi­co mas de uma teologia nova que esclarece, proporcionando explica­ções racionais e científicas. Utilizando-se, por fim, das equações matemáticas explica exatamente o que é o pensamento de Deus antes e depois da nossa criação. Explica os conceitos fundamentais da Bíblia, a queda dos anjos e o significado do pecado original, a origem e o fim do Bem e do Mal, e a solução final do dualismo que é a lei que preside o Universo, um Universo plasmado na ma­téria da qual nós devemos, com grande esforço sair, evolvendo pa­ra chegarmos até Deus, nossa meta, nosso centro, nossa última e su­prema felicidade.

Continuarei o meu trabalho mas devo, aqui, vos agrade­cer pelo vosso amor que me ajudará de um modo extraordinário.

Eu vos agradeço a vossa bondade ensinando-me a amar — coisa de que nunca mais me esquecerei – esta grande terra; o Brasil, é, eu vô-lo afirmo, a minha segunda pátria.

Livro: Grandes Mensagens

http://www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/GrandesMensagens.pdf

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