Ubaldi e Teilhard (2)

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Os sofrimentos morais devido à dolorosa posição de incompreensão e condenação.

Teilhard foi mandado para Nova York, para lá morrer em condições de verdadeiro exílio, depois de uma vida cheia de amargura, devido à dificuldade cada vez maior de tornar conhecidos os seus escritos. O seu problema era de consciência, dizendo respeito a um cientista que, havendo descoberto a verdade, trata de levá-las para o terreno religioso, a fim de iluminar os crentes que, honestamente, desejam conhecer mais além da fé, para ficarem convencidos.

Muitos não querem fazer o esforço de pensar e se arriscar com o novo, preferindo permanecer seguros nas concepções tradicionais. Na comodidade da própria preguiça, considera-se então como elemento perturbador quem, por ter sede de luz, parece rebelde à velha ordem e quer conhecer e fazer conhecer, subir e fazer subir, pois arde numa contínua tensão espiritual, com a qual perturba os que dormem quietos numa aquiescência passiva, chamada por eles de fé e ortodoxia. A muitos não interessa um maior conhecimento nem a conquista da verdade, mas sim o grupo humano do qual cada um faz parte, o seu poder terreno e o seu engrandecimento pela conquista de prosélitos.

O nível de unificação hoje alcançado não vai além da família e dos grupos particulares, sejam religiosos, econômicos ou políticos, todos sempre limitados em função de determinados interesses comuns. Grupos mais vastos, nacionais ou raciais, estão apenas em formação. Cada unificação na Terra não chega a alcançar senão o grau de partido ou castelo fechado, armado e em luta contra os vizinhos, que também estão em estado de guerra, para não serem destruídos, sendo a destruição do outro justamente o objetivo de todos eles, a fim de garantir para si próprio o triunfo. Enquanto a humanidade não superar esta fase de sua evolução, deverá ficar submetida às leis deste plano biológico inferior. O evoluído que trate de elevá-la a um nível superior, para funcionar com outras leis e segundo uma outra compreensão da vida.

O reformador, desejando implantar uma nova ordem, sacode as bases do castelo no qual o grupo se aninha, levando desordem às sua filas, condição da qual os inimigos estão prontos para se aproveitar. É necessário compreender que a vida é um estado de guerra pela sobrevivência. Urge, portanto, como primeira coisa, a defesa e só depois, como luxo de ricos, é admitida a evolução. Tais tentativas de avançar são deslocamentos perigosos, dissipação de forças em tentativas que debilitam o grupo, sendo, assim, consideradas saltos na escuridão. Quem os provoca deve, portanto, ser eliminado.

Isto é contra Deus, mas pode ser feito em nome de Deus. Trata-se de sufocação espiritual, negação de ascensão, mas a autoridade pode fazê-lo porque, sendo mais forte, tem razão contra o indivíduo, que, isolado, é mais débil. Por isso ele deve submeter-se, apesar de lutar por um fim muito mais alto do que aquele pelo qual luta a autoridade. Todavia trata-se de duas funções, ambas necessárias: uma perante os homens, por necessidade terrena, outra perante Deus, por necessidade do ideal.

A evolução deve ser o resultado de um esforço, de modo que a sua realização seja o prêmio de uma fadiga. Este galardão pertence, por direito, ao mais evoluído, que avança à frente dos outros, os quais, por sua vez, representam a resistência a vencer, o obstáculo a superar, as trevas a iluminar. Embaixo, na retaguarda da evolução, está o mundo.

Na direção do alto se lança o evoluído, seguindo em frente, avançando em direção a Deus, distanciando-se do mundo. Ele não está do lado do mundo, mas sim do lado de Deus, que o espera, o convida e o impulsiona para diante, atraindo-o e ajudando-o. A enorme força e a grande compensação do condenado, mesmo que a condenação tenha sido feita em nome de Deus, é estar ao lado da verdade e da justiça de Deus, é encontrar-se ao lado de Sua lei, que estabelece no fim a vitória do bem sobre o mal, o domínio da afirmação sobre a negação.

Uma humanidade mais inteligente e civilizada saberá um dia evitar tais conflitos dolorosos de consciência, saberá defender a fé mais por convicção do que por obrigação, saberá abrir os braços para compreender os novos problemas e as necessidades de quem, buscando honestamente, tem sede de verdade, em vez de afastar a quem pede mais luz.

O fato é que, enquanto as religiões procuram detê-lo, o pensamento humano caminha e, justamente por elas quererem detê-lo, ele se pôs a caminhar por sua conta, fora das religiões, que são deixadas para trás e esquecidas, com todo o devido respeito, no meio das coisas velhas, que, não servindo mais, são colocadas no museu.

Assim nasceu a indiferença, o materialismo, o ateísmo e outros males semelhantes. Os micróbios patogênicos estão por toda a parte, mas o seu ataque vitorioso depende da nossa predisposição e debilidade orgânica. Ninguém pode fugir às leis da vida, que está sempre pronta a liquidar tudo quanto não sirva mais para cumprir a devida função.

A paixão por Cristo, racionalmente concebido como ponto de convergência da evolução da vida.

Trata-se de um Cristo muito maior, eixo espiritual do mundo, alcançável tanto pelas vias do misticismo como pelas vias da ciência, ponto Ômega tanto desta como da fé, significado e conclusão da história, princípio, guia e cume da evolução, só concebível desta maneira hoje devido à atual maturação do pensamento humano.

Um Cristo total, não só religioso e fechado no passado, mas também progressista, atual e social. Um Cristo que aceita a luz advinda do pensamento científico e reconhece o caráter sagrado da investigação, nobilitando-a e santificando-a, porque é santo todo o conhecimento, como função e produto do espírito; um Cristo que, ao invés de contra, está com a ciência, coma ânsia de saber, com o espírito da indagação, com a paixão de evoluir; um Cristo que se desenvolve agora em dimensões vastíssimas, dentro da mente humana, a qual está hoje apta a concebê-Lo com outras medidas; um Cristo que, sendo mais racional, presente, dinâmico, universal, unitário, é síntese suprema de fé, de pensamento e de vida.

Cristo pertence a toda a humanidade, e nenhuma religião pode possuí-Lo com exclusividade. Não se pode isolá-lo num templo particular ou num grupo humano, porque Ele está no centro da biologia universal do espírito.

Este Cristo, de dimensões cósmicas, superior a todas as formas e dimensões humanas, situado no centro de uma super-religião de substância, no vértice da evolução da vida no planeta, nos antípodas da nossa baixa existência terrena, sempre presente para curar com o Seu divino esplendor a nossa cegueira e sanar com a Sua potência e bondade as misérias de nosso pobre mundo, é o Cristo que, junto a Teilhard, eu venero e amo.

Livro: A Descida dos Ideais

www.ebookespirita.org/PietroUbaldi/ADescisaDosIdeais.pdf

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