Breve História do Monismo (5)

gilson

Artigo de autoria do Dr. Gilson Freire, da cidade de Nova Lima (MG), que dividiremos em 5 partes para uma melhor reflexão sobre o tema apresentado e estudado: O MONISMO

5ª Parte

Pelo fato de podermos reduzir tudo a um tipo único, torna-se possível assim compreender toda a estrutura da criação, pois se conhecermos os princípios que regem um determinado fenômeno, basta extrapolá-los para as maiores ou menores unidades que lhe seguem, uma vez que todos lhes serão análogos. Assim o Todo sempre copia a si mesmo, o microcosmo repete o macrocosmo e nas menores particularidades fenomênicas se acham sempre presentes os mesmos fundamentos gerais que regem a criação. Um idêntico pensamento gera galáxias, guia mundos, constrói átomos e também forma seres fecundados de vida, sentimentos e vontade. Isso nos leva a reafirmar, como aprendemos em A Grande Síntese, que uma mesma potência se faz coesão no átomo, atração no mineral, luta no animal, simpatia no homem e amor na angelitude.

Além disso, observa-se na criação que o impulso de unificação se equilibra com uma igual força de partição, que tudo divide em menores componentes, fazendo o geral fragmentar-se no particular e especializar-se em funções específicas. Fato necessário para que o Todo se converta em organismo, onde quer que se expresse a fenomenologia universal. Todavia, podemos observar também que, embora a realidade unitária se separe em partes constituintes, estas logo tornam a se juntarem no afã de reconstituir a unidade. E, assim, a rica complexidade fenomênica da criação nada mais é do que a pulverização de uma mesma unidade que busca reunir-se novamente, fundindo suas partes em um indissolúvel conjunto. Tal impulso é facilmente observável em nós mesmos, pois somos feitos de um inestancável anseio por unificações que somente a herança dos atávicos impulsos divinos pode explicar.

Unidades de princípios e finalidades, de ações e meios, de dinamismos e trajetórias fazem assim do universo um grande e unitário organismo. Por isso, isolar-se é morrer em nosso cosmo e todo “filho” está imbuído do permanente ensejo de reencontrar-se com o seu “Pai”.

O princípio monista imprime a tudo uma razão de ser e um funcionamento lógico, tornando o universo um todo por excelência, orgânico e ordenado. Na infinita variedade das formas, ele se expressa sempre igual, ressurgindo com mecanismos semelhantes e objetivos comuns, embora em níveis e particularidades, às vezes, aparentemente diferenciados. Logo, esse é o fundamento que confere ordem e harmonia ao cosmo, sem o qual tudo se esfacelaria em um completo caos.

A própria lei que rege a criação se comporta como uma unidade orgânica, pois seus princípios se desdobram sempre dos maiores para os menores, gerando uma coerência de funcionamento que se harmoniza em torno de objetivos comuns e faz convergir causa e efeito, tornando ilusórias as suas divisões, uma vez que, fundidos na unidade, nada tem existência isolada. Por isso, Deus está ao mesmo tempo no centro e na periferia da criação, por mais distante que se possa concebê-Lo, não havendo para o pensamento diretor do universo lugar onde não se ache presente com a mesma potência de Seu cerne de origem. “Todas as coisas estão cheia de deuses”, nos afirmou a visão intuitiva de Tales de Mileto, ainda no século VI a.C., que enxergou em tudo a manifestação da mente divina.

O fundamento monista nos diz ainda que o edifício divino tem, não somente uma única origem e funcionamento, mas se constrói através do transformismo de uma só substância, fato que caracteriza justamente o monismo substancial. Do pensamento de Deus, portanto, parte uma emanação criadora unitária, que Ubaldi denomina substância, capaz de se converter em tudo o que é possível existir. Indefinível em sua natureza íntima, tal substrato unitário se constitui, em sua origem, de uma potência criadora que se dinamiza pela vontade, concretizando-se em todos os elementos conhecidos e desconhecidos, fazendo do universo nada mais do que uma abstração da mente divina. Esse conceito torna espírito, energia e matéria elementos de idêntica natureza que se diferenciam apenas por íntimo funcionamento dinâmico e nada mais. E assim, no edifício monista, essas três apresentações fenomênicas têm uma mesma fonte e não são, absolutamente, geradas em separado como anteriormente julgávamos. O espírito é a ideia pura, a energia é a ideia dinamizada progredindo no tempo e a matéria, a mesma ideia encarcerada no espaço. Tornaremos a esse monismo substancial a fim de visualizá-lo melhor, mais adiante.

Compreendemos ainda que, embora pareça um contrassenso ao nosso precário entendimento, o princípio de unidade se manifesta como uma divisão conceitual dualística e ternária, pois ele se faz dualidade e trindade ao mesmo tempo. Fato indispensável para se gerar a complexidade fenomênica universal e que entenderemos melhor ao apresentarmos os princípios de dualidade e trindade que integram o funcionamento do Todo.

O monismo, como princípio de unidade, está então inexoravelmente presente em tudo o que se forma na natureza. Tudo se origina a partir de uma semente, um núcleo irradiante de potencialidades criadoras que se desenvolve na multiplicidade da forma. Por exemplo, somos uma admirável unidade orgânica, uma única vontade operante de um eu central, manifesto em um universo de 100 trilhões de células que nasceram de um único óvulo fecundado, expressando nitidamente o admirável princípio unitário que funciona no Todo e no particular. E não somente os seres biológicos se desenvolvem a partir de bases unitárias, pois o universo físico se expandiu a partir de um ponto mínimo de singularidade, as galáxias são irradiações de um poderoso núcleo de atração gravitacional e os sistemas solares se constroem a partir da convergência de diáfanas massas nebulares. No reino elementar, igualmente, uma única substância, o hidrogênio, é a base para a formação de todos os 94 elementos naturais. E chegaremos à compreensão de que um único substrato forma todo o edifício atômico, com sua variada gama de partículas fundamentais. E uma só força origina todas as energias do universo, fato que, se ainda é motivo de perquirições pela nossa ciência, já desponta na intuição humana como uma verdade fundamental, pronta para concretizar a tão sonhada grande teoria unificada do universo.

Conhecedores de que uma base monista governa a obra divina, torna-se fácil compreender que o individualismo separatista, que por vezes nos domina as intenções, é inadequado sentimento que nos aparta das portentosas forças que sustentam a criação e nos faz paupérrimos em meio à abundância que nela impera. Por isso, unificar-se é o sentido da vida e o anseio natural que deve nos mover na caminhada evolutiva.

Torna-se claro que a abrangente visão monista de Ubaldi resgata o conceito de um Deus criador, ou seja, o criacionismo secular, sem negar a verdade inconteste do evolucionismo hodierno. E, unindo teses e antíteses numa elevada dialética espiritual, nos capacita a alcançar a visão síntese em que se desenha a geometria cósmica, satisfazendo-nos o natural desejo de discernimento. Dessa forma, o monismo efetua uma das mais importantes reconciliações que o homem moderno, urgentemente, deve empreender: a união das duas irrevogáveis e aparentemente contraditórias teorias sobre a macroestrutura da criação que chegaram até os nossos dias, o criacionismo e o evolucionismo, justificando-se a exata posição de cada uma delas no arranjo do Todo.

Belo Horizonte, inverno de 2005

Gilson Freire

Bibliografia:

1) UBALDI, Pietro. A Grande Síntese. 21a ed. Campos dos Goytacazes: Ed. Instituto Pietro Ubaldi, 2001.

2) UBALDI, Pietro. Deus e Universo. 3a ed. Campos dos Goytacazes: FUNDÁPU, 1987.

3) UBALDI, Pietro. O Sistema. 2a ed. Campos dos Goytacazes: FUNDÁPU, 1984.

4) FREIRE, Gilson. Arquitetura Cósmica, Belo Horizonte: INEDE, 2006.

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