Breve História do Monismo (4)

gilson

Artigo de autoria do Dr. Gilson Freire, da cidade de Nova Lima (MG), que dividiremos em 5 partes para uma melhor reflexão sobre o tema apresentado e estudado: O MONISMO

4ª Parte

E interessante diferenciarmos logo o monismo ubaldiano do panteísmo, defendendo-o das incorretas injunções que muitos estudiosos lhe imputaram, compreensíveis, ante as dificuldades de nosso concebível atual em lhe alcançar toda a maravilhosa extensão conceitual. Fato que, como vimos, se repete frequentemente na história humana, sempre pronta a condenar o que não pode ser prontamente compreendido.

O panteísmo é a doutrina que compreende Deus nada mais do que a somatória de tudo o que existe. Segundo essa escola filosófica, há uma aproximação de identidade completa entre Deus e a criação, entendidos como integrados em uma só e indissolúvel realidade. Assim, Deus é coincidente com a sua obra e nada pode existir que não seja a própria substância e manifestação da Divindade, até mesmo a condição humana. Tudo sendo Deus, toda individualidade somente existe como gotas em um oceano, e o oceano, por sua vez, nada mais é do que o conjunto de todas elas. Esta doutrina foi severamente combatida nos meios religiosos ocidentais, compreendida como uma negação da existência de um Deus independente e transcendente à Sua obra. Hoje compreendemos que a teologia cristã nos ensinou a divisar, ainda que situado nos rincões do infinito, somente a transcendência divina, como se fosse a Sua única realidade, visão que se define como monoteísta. Já o panteísmo é uma tentativa de se compreender Deus como uma imanência presente em toda criação, uma vez que o Senhor não poderia criar fora de Seu próprio campo de manifestação e sem que retirasse de Sua própria substância unitária, aspecto que também não pode ser negado.

Dessa forma o monoteísmo viu Deus em Sua transcendência, a unidade divina que está além da criação, enquanto que o panteísmo O vislumbrou em Seu aspecto imanente, inserido em tudo o que existe. Já o monismo é a exata soma das duas visões, a transcendência e a imanência divina, unificando as duas verdades em uma única realidade. E assim o monismo reúne o Deus superior, que comanda à distância a Sua criação, com o Deus interior, que é força e lei imanente e permanente em cada eu fenomênico em realização no mundo das formas.

No início do século XIX, o pensador alemão Christian Krause intentou também a união entre as doutrinas monoteísta e panteísta, criando o termo panenteísmo, também chamado de panteísmo acosmístico, calcado na mesma suposição monista de que todo o universo está contido na intimidade de uma única e divina substância primordial, aproximando-se do pensamento de Ubaldi.

Um modo facilitado de se compreender a relação entre o monoteísmo e o panteísmo é considerarmos a nossa vivência como fenômeno humano. Somos um organismo consciente formado por 100 trilhões de células que vivem no nosso campo de expressão interna e formam conosco uma unidade. Porém, não somos a exata soma de todas as nossas individualidades celulares, pois temos uma consciência à parte e superior ao conjunto, embora estejamos incorporados igualmente em cada uma delas em particular. Somos, portanto, uma entidade panteísta e monoteísta concomitantes em nossa relação corpórea, configurando-nos, na verdade, como um ente monista-unitário e indiviso.

Assim, o Deus panteísta é o infinito oceano de gotas de que se compõe a criação e o Deus monoteísta é a máxima individuação que transcende a todas elas. Ambos os aspectos se somam em uma unidade, na verdade, indissolúvel e que apenas conceitualmente se pode separar, compondo o verdadeiro monismo – a unidade divina, o Todo orgânico que tudo contém e, ao mesmo tempo, é mais do que o seu conjunto.

Dessa forma compreenderemos que, como nos afirmou Sua Voz (assim Pietro Ubaldi denominou a fonte inspiradora de seus ensinamentos, como veremos logo a seguir), se na história do pensamento religioso, a visão deífica progrediu do politeísmo para o monoteísmo no passado, deve agora evoluir do monoteísmo para o monismo, a fim de nos fazer avançar no indispensável e mais real entendimento da natureza de nosso Pai celestial. Lembrando que estamos considerando aqui o amplo monismo idealista e espiritual de Pietro Ubaldi, por julgá-lo o mais habilitado, na atualidade, para nos conduzir nessa escalada do conhecimento, uma vez que ele é o único capaz de absorver todas as outras doutrinas unicistas que citamos.

O monismo se apoia assim no princípio de unidade, como o fundamento que sustenta todo o edifício conceitual da criação, o alicerce de toda a fenomenologia universal. Por isso monismo nos diz que tudo no universo se constrói segundo um modelo único, oriundo de um único pensamento diretor que proporciona a tudo funcionamento e estrutura semelhantes. Observa-se, assim, um só princípio que se desdobra do geral ao particular, copiando-se sempre a si mesmo. Em decorrência disso, o universo se comporta como um grande e unitário organismo, um Todo coerente, funcionando suas partes de modo integrado em função de uma unidade maior.

Justifica-se, dessa forma, o fato de que as leis que regem esse Todo se comportem de forma idêntica em absolutamente todos os lugares em que expressa a existência, uma vez que elas são filhas de uma mesma Inteligência diretora. Se assim não fosse, não podendo se tocar fisicamente pelas imensas distâncias que os separam, os fenômenos não poderiam funcionar de forma tão semelhante. Por exemplo, por que a lei da gravidade atua exatamente da mesma maneira em regiões que jamais se conheceram? A unitária coerência das leis físicas é a máxima e inconteste prova de que a criação flui de uma única vontade que uniformiza todas as suas expressões fenomênicas, refletindo o Todo de onde provêm. “A unidade é a mais evidente expressão do monismo do universo e da presença universal da Divindade” – nos afirma Ubaldi em A Grande Síntese.

O princípio monista gera a repetição do tipo único, fazendo com que a criação reproduza, em todas as suas escalas, os mesmos fundamentos gerais do Todo. Por isso a obra divina, embora se divida do geral ao particular, irá refletir, nas partes, o mesmo comportamento da Unidade. A geometria monista faz-se assim holística em seus fundamentos, uma vez que as suas frações são iguais à totalidade. Esquema este que identificamos nas formulações denominadas fractais, que se desenham como formas geométricas divididas em partes sucessivamente menores, as quais copiam, do infinito positivo ao negativo, a exata configuração do diagrama maior.

A dinâmica em fractal, segundo a qual é tecida a criação, representa exatamente o mesmo conceito apregoado pela doutrina holística atual, que se encontra refletido também no esquema holográfico, no qual cada porção repete exatamente a figura do conjunto. Princípio secular que se pode identificar nas culturas do passado, pois os grandes sábios de todos os tempos souberam enxergá-lo, com evidência, na expressão fenomênica do universo. Uma lenda védica nos diz que, no paraíso de Indra, há um colar de pérolas dispostas de tal maneira que, ao se olhar para uma delas, se vê refletido todo o colar. Anaxágoras no séc. V a.C. já afirmava que “tudo está em tudo” e que “em cada coisa há parte de todas as coisas”, conceito repetido por Heráclito no séc IV a.C., que, com poesia, nos revelava a mesma dinâmica holística do funcionamento universal, ao afirmar: “De todas as coisas um e do um, todas as coisas”. Parmênides, ao declarar que o cosmo era uma esfera única e imóvel, e Pitágoras, ao dizer que todas as coisas são números, vislumbravam igualmente a coesão unitária da criação. Os filósofos monistas, como Spinoza, ao supor o todo como a única realidade e Leibniz, declarando a unidade monádica da criação, estavam no encalço do princípio unitário. E, da mesma forma, os físicos modernos, empenhados na busca da grande teoria unificada, sem que o saibam, estão atendendo ao mais lídimo anseio da alma humana: a compreensão da lei de unidade que rege o universo e nos aproxima do Criador.

Esse princípio, contudo, foi melhor evidenciado por Jesus ao afirmar “Eu e o Pai somos um” e ao explicar que veio ao mundo “para que todos sejam um; assim como tu, ó Pai, és em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós” (João 10:30 e 17:21 respectivamente ), suscitando-nos a entrega da vontade a Deus a fim de constituirmos com Ele e o universo uma verdadeira unicidade.

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