Breve História do Monismo (3)

gilson

Artigo de autoria do Dr. Gilson Freire, da cidade de Nova Lima (MG), que dividiremos em 5 partes para uma melhor reflexão sobre o tema apresentado e estudado: O MONISMO

3ª Parte

Como vemos, muitas são as acepções que se podem imputar ao monismo que, embora sendo a doutrina da unidade, não se eximiu de se diversificar na pulverização do fragmentário pensamento humano que ainda não conhece o caminho para a síntese. A despeito do valor de todas elas, nos ateremos, em nosso estudo, ao monismo ubaldiano, por se tratar do nosso objetivo, abstendo-nos de um estudo comparativo e pormenorizado de todas as demais vertentes interpretativas. Assim sendo, consideraremos doravante toda referência ao monismo como sendo genuinamente aquele que integra o pensamento de Ubaldi, eximindo-nos de indicar-lhe a origem.

Na atualidade, nenhuma das doutrinas monistas sobrevive fora dos ambientes acadêmicos da filosofia, uma vez que a dicotomia cartesiana, que passou a imperar nas concepções humanas, tornou-se vigorosa o bastante para se impor como a única estampa da realidade. Tendo como base o monoteísmo e a multiplicidade fenomênica, ela nos desenhou uma visão mecanicista e atomista de mundo, a qual ainda domina a mentalidade do homem comum de nossos dias.

Extrapolando o âmbito da ciência onde se estabeleceu e ignorando as brisas ideológicas que periodicamente saneiam a estagnação humana, a dicotomia cartesiana terminou por contaminar todo o pensamento religioso ocidental de modo geral. As grandes religiões cristãs, amofinadas em seus templos de pedras, persistem compartilhando conceitos monistas e monoteístas com um dualismo reducionista e limitado, deixando a alma humana subjugada por um insolúvel dilema conceitual, não vivenciado somente por aqueles que ainda não o podem perceber, incapazes de alcançar o seu significado mais profundo. Deus e o espírito separaram-se definitivamente da matéria, pondo-se, de um lado, os assuntos de interesse religioso e de outro, as interpretações científicas, como duas realidades irreconciliáveis.

O espiritismo, embora imbuído de uma genuína ânsia de síntese filosófica e religiosa, nasceu, como o exigia a época em que veio aos homens, ventilado por essa concepção dualista distanciada do unicismo que seguramente deve imperar na criação. Embora ele tenha estabelecido o espírito puro como o único produto resgatável da criação progressiva, o seu universo está dicotomizado entre uma essência espiritual (Deus e espírito) e outra física (a matéria). Todavia, o monismo substancial está nele parcialmente presente na figura do fluido cósmico universal, a substância unificadora, hausto divino, fonte originária dos objetos fenomênicos, exceto do espírito, embora este também provenha de Deus. Felizmente, como podemos ver através do pensamento de Emmanuel, o dualismo espírita também está se encaminhando para a realidade monista da criação, embora muitos estudiosos espíritas ainda não tenham ressaltado o fato, menosprezando-lhe a importância.

Fixado em dogmatismos e repousando entre um monoteísmo teológico, restrito aos círculos de uma fé irracional, e o pluralismo científico, adotado como realidade no domínio da Física clássica, onde Deus não deve se meter, o homem atual não se deu conta, ainda, de que nenhum desses dois modelos espelham os fundamentos da obra divina. Se a própria ciência já afirmou que o universo, em sua intimidade infinitesimal, é uma teia fluídica urdida em uma inquestionável interdependência, o seu estofo constitucional é, em última análise, um monismo interativo.

Em meio ao caos conceitual de nossos dias, Ubaldi comparece a fim de resgatar devidamente o verdadeiro monismo, em seu sentido metafísico, como uma linha mestra da compreensão de Deus e do universo. Afirmando a unidade indissolúvel da criação, sua criteriosa filosofia reconcilia perfeitamente a fé com a ciência e recompõe o dualismo cartesiano, ainda vigente, em uma definitiva fusão sintética que vencerá os tempos e se fundamentará como o mais exato retrato da realidade. Por isso, acreditamos, o grande missionário de Cristo será lembrado pela história humana como o maior representante do pensamento monista de todos os tempos.

O monismo de Ubaldi, essencialmente idealista, transcendental e divino, se baseia na existência de um substrato primário, que ele denomina substância, como fonte de tudo o que existe. Algo que não pode ser compreendido como uma base física, a substância é o fluxo do pensamento de Deus que se individua em toda manifestação fenomênica conhecida, sendo, portanto, uma potência criativa inefável e incriada, originariamente atemporal e hiperdimensional. Representada por ômega (w) na grande equação da substância, descrita brilhantemente em A Grande Síntese, podemos identificar a substância de Ubaldi como o mesmo noûs que sustentava as concepções de Anaxágoras e Plotino. Ela é a base para a formação ao mesmo tempo do espírito, da energia e da matéria, conduzindo-nos ao mais completo entendimento do monismo universal de que se tem notícia até o momento, conceito que melhor abordaremos posteriormente.

A unidade da criação, a substância, segundo o pensamento de Ubaldi, é capaz de se manifestar em um aspecto ternário e dual ao mesmo tempo, como expressões genuínas de sua divina potencialidade. Fato que a torna suscetível de se converter em todo eu fenomênico conhecido, seja ideológico, dinâmico ou estático. Essa extraordinária concepção se, a princípio, pode nos parecer incompreensível, permeia toda a dialética ubaldiana, estabelecida como o fundamento do pensamento divino e da criação.

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