As concepções de Deus

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Há duas maneiras de conceber Deus, das quais derivam dois métodos de pensar e de viver, duas éticas diferentes, filhas de dois tipos de religião: a do homem atual, ainda involuído — conforme à sua forma mental de primitivo; e a do evoluído super-homem do futuro — conforme a uma outra forma mental completamente diversa.

No primeiro caso, o homem concebe Deus antropomorficamente à sua imagem e semelhança, baixando-O até ao seu nível humano, sujeitando-O à sua lei de luta, tratando-O com o seu método de astúcia e psicologia de engano com que costuma enfrentar os seus semelhantes.

No segundo caso, o homem concebe Deus com outra forma mental, como um ser que está acima das leis do plano humano e das suas maneiras de pensar e agir. Trata-O, por conseguinte, com absoluta sinceridade e confiança, com um método completamente diferente, o da honestidade, merecimento e justiça.

O que, de fato, existe no mundo são dois tipos de religião: a vigente, filha do passado, e outra, que antecipa o futuro. Ambas correspondem a dois níveis de evolução e são consequência da forma mental e das leis que regem a vida do involuído e do evoluído. Isso é possível devido ao fato do homem ser uma criatura em evolução, quer dizer, em estado de transformismo, de modo que ao lado do velho, que está morrendo, aparece e existe o novo, que está nascendo.

De cada uma dessas duas verdades deriva uma ética especifica, porque ambas coexistem lado a lado: a inferior, praticada pela maioria involuída; e a outra, seguida por uma minoria de evoluídos, e que é exceção à regra comum.

A verdadeira ética não depende do homem, mas de Deus. Ela está acima de tudo e de todos, escrita na Lei e dentro da própria natureza das coisas, daí não se poder fugir.

Assim, tudo o que podemos fazer é explicar, para os que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender, os imensos prejuízos que derivam da ética hoje vigorante. O atual sistema de insinceridade vale tanto quanto aquele do capitalista que explora os operários pagando-lhes o menos possível, e do operário que se compensa procurando explorar o patrão trabalhando pouco e da pior maneira possível.

O mesmo acontece no caso semelhante que já vimos, o da casta sacerdotal, que do seu lado, com a ameaça do inferno e a promessa do paraíso, consegue ficar na sua posição de domínio; e o caso do povo que se compensa executando só práticas exteriores, e acreditando apenas no seu interesse, pensando ganhar com elas a salvação, enganando a Deus e seus ministros.

Chega-se assim a uma religião às avessas, em que se satisfazem os instintos inferiores e se aprende a arte da mentira; mas isto até que, pelos muitos sofrimentos que o método gera para todos, eles aprendam outro menos prejudicial, o método da sinceridade com Deus e consigo mesmo.

Esta é a religião à qual o impulso do progresso e a escola de tantas duras experiências terá de levar o homem. Religião do futuro, mais livre, porém sem possibilidade de enganos; imaterial, mas inflexível, e não flexível, como as atuais. Trata-se de um progresso que mais nos aproxima do verdadeiro conceito de Deus.

É estranho, porém, que tal progresso seja considerado uma ameaça pelas religiões atuais, que preferem ficar cristalizadas nas suas velhas formas, o que é morte, ao invés de correr ao encontro da vida, renovando-se. Quem procura a renovação, avaliado com as velhas unidades de medida,  julgado irreligioso, rebelde, herético e como tal é condenado.

Os julgados revolucionários, não são destruidores, mas construtores, para que amanhã, da ruína das velhas religiões que estão desmoronando juntamente com os sistemas éticos respectivos que nelas se baseiam, alguma coisa de firme e seguro fique no mundo para orientar positivamente o homem do futuro e dirigir com clareza e honestidade a sua conduta.

O que procuramos é uma religião que não permita escapatórias, mas leve o homem a uma ética que, pela sua justiça evidente, tenha o direito de impor o cumprimento dos deveres que ela exige, porque se baseia na realidade da vida, e não em abstrações teóricas, que poucos entendem porque estão fora dessa realidade.

O que de fato hoje prevalece é o materialismo religioso, isto é, só uma aparência formal de religião praticamente ateia na substância, o que representa a última fase da decadência. Quanto mais a mente se desenvolve, tanto mais o homem se torna exigente em querer conhecer as razões pelas quais ele tem de se conduzir de uma dada maneira, suportando os deveres e sacrifícios respectivos.

Desponta então um espírito crítico e uma autonomia de juízo que não deixa mais aceitar cegamente as ideias simplistas do passado, por sugestão ou princípio de autoridade; aparece o hábito do controle analítico das coisas e ideias, pelo qual, se o indivíduo se apercebe que os ideais proclamados não correspondem à realidade dos fatos e às exigências da vida, então os repele.

Quando, com a psicanálise, se começa a controlar a natureza subconsciente de tantos dos nossos secretos impulsos, onde está a raiz das nossas ações, aos quais no passado o homem inconscientemente obedecia como uma verdade absoluta, então não é mais fácil convencer e obter obediência.

Os pilares da velha lógica não se sustentam mais, porque está mudando por evolução a forma mental humana. Então os que são intelectual e espiritualmente mais fortes começam a pensar com a sua cabeça, a dirigir-se por si mesmos, assumindo sinceramente perante Deus as suas responsabilidades.

Eles são condenados como rebeldes por saírem das fileiras, o que é escândalo.

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