Breve História do Monismo (2)

gilson

Artigo de autoria do Dr. Gilson Freire, da cidade de Nova Lima (MG), que dividiremos em 5 partes para uma melhor reflexão sobre o tema apresentado e estudado: O MONISMO

2ª Parte:

No início do século XX, o filósofo e biólogo alemão Ernst Haeckel, utilizando o pensamento evolucionista de Charles Darwin, tentou explicar a vida, o universo e a própria consciência, segundo um monismo genético e mecanicista. Ele foi o primeiro pensador moderno a intentar, com a ajuda do evolucionismo nascente, a unificação da Biologia com a religião.

Ainda que seu pensamento monista não tenha abrangido a essência divina, seu brilhantismo se revelou na descoberta da existência de um princípio unificador regendo a evolução, chamado lei biogenética, segundo o qual cada animal percorre, a partir da fase embrionária, todas as etapas evolutivas que o levaram a ocupar o seu lugar na ordem natural.

Em suas próprias palavras, “a ontogenia recapitula a filogenia”, sendo a ontogenia o desenvolvimento embrionário individual e a filogenia a história evolutiva da sua espécie, princípio que foi prontamente absorvido pelo pensamento espiritualista moderno. Somando-se a lei biogenética de Haeckel à palingenesia, foi possível unificar a evolução biológica com o espiritualismo, adotando-se o princípio espiritual como a unidade da vida, proporcionando-se maior coerência aos processos vitais e conferindo telefinalismo às mutações genéticas, antes consideradas fenômenos completamente casuais.

A ciência do século XX, concebendo em sua época que tudo se reduz à matéria e não admitindo para ela uma origem transcendente a si mesma, compôs o seu mais importante subsídio filosófico, o monismo materialista. Monismo que logo sucumbiu ante a irrealidade das bases constituintes da própria matéria, sob o domínio do pensamento quântico que tudo desfez em pacotes de ondas que, afinal, em nada se sustentam.

Prenunciando o monismo quântico, Wilhelm Ostwald, químico e filósofo germânico do início do século XX, apregoou a doutrina segundo a qual a única e última realidade da existência era a energia. E recentemente, unindo a Física relativista à Mecânica quântica, a moderna teoria das cordas, como vimos, vem tentando resgatar um substrato único para as partículas atômicas de massa e para as energias que as mobilizam, identificando-o nos laços mínimos, as agitadas unidades feitas de insólitos pulsos vibráteis e nada mais. Esforço que integra a busca pela grande teoria unificada (Gut, em inglês) segundo a qual a ciência de nossos dias se empenha na afanosa procura por um monismo substancial que satisfaça o natural anseio humano por unicidade, aspiração que sempre moveu todos os grandes pensadores de todas as épocas, demonstrando-nos que a unidade é um modelo divino que impera em toda a criação.

Já o monismo idealista se fundamenta em princípios formativos de natureza imaterial e espiritual, para explicar a composição de tudo o que existe. Seu mais ardoroso representante na Antiguidade pode ser considerado Plotino, o sucessor do idealismo platônico. Filósofo egípcio que viveu entre 205 e 270 d.C., desenvolveu a escola denominada neoplatonismo que defendia ser a realidade última do universo a inteligência pura, incognoscível, infinita e perfeita, da qual tudo derivava. Plotino se utilizou do mesmo termo apregoado por Anaxágoras, noûs, como a essência universal consubstanciada no Uno para compor o seu monismo idealista. Ele foi mais tarde, no período medieval, seguido por Jâmblico, Proclo, Santo Agostinho e Marsilio Ficino.

No pensamento eminentemente teológico da Era Medieval predominou um monismo idealista ternário, fundamentado na Santíssima Trindade. A despeito de não se encontrar uma referência exata no texto bíblico, acredita-se que ele tenha sido inferido pelas palavras de Cristo por ocasião de seu batismo e em sua reaparição depois da morte, quando Ele recomenda aos apóstolos: “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). Estabelecido como um mistério da fé, esse monismo ternário foi instituído pelo I Concílio de Nicéia no ano 325 da era cristã, contudo, foi Santo Agostinho, em sua obra De Trinitate (Da Trindade) escrita no ano 400 que o fundamentou como um dos principais dogmas da Santa Sé. O Santo de Hipona, detendo-se largamente na compreensão do principal mistério da fé cristã, definiu a unidade mística da Trindade como uma consubstanciação, palavra que designa a união de dois ou mais corpos em uma mesma substância, fazendo das três uma só pessoa. Embora o dogma permaneça incompreendido pela maioria dos fiéis até os dias de hoje, com o pensamento agostiniano ele se caracterizou como um verdadeiro monismo, ainda que abstrato e indiferenciado, porquanto a Trindade se unificava em Deus, o Pai, impedindo-se a distinção de três deuses independentes. Mesmo se expressando em três pessoas, Deus era considerado a fonte da Trindade, conservando-se como uma transcendência unitária, indivisa, incriada e origem de todas as coisas. Todavia, a interpretação monista que inicialmente ventilou a filosofia cristã terminou por se fixar, de fato, não no monismo propriamente dito, mas sim no monoteísmo, uma vez que se passou a considerar um Deus antropomórfico de aspecto apenas transcendente, recôndito no céu, distanciado da criação e de seus seres.

No Renascimento, contrariando o monoteísmo que se estabeleceu como dogma, Giordano Bruno recrudesceu o monismo idealista e religioso, defendendo a existência de um Deus infinito que, além de ser o Senhor do universo, se fundia também com a Sua própria criação, tornando divina toda a natureza. Estando muito além da acanhada teologia de seu tempo, ele não pôde ser compreendido e, acusado de panteísta, grave heresia em sua época, acabou sendo condenado à morte na fogueira no ano de 1600, como já vimos.

Logo depois nos encontramos com o holandês Baruch de Spinoza, defensor de um monismo idealista segundo o qual espírito e corpo seriam atributos de uma mesma substância de natureza divina, sendo Deus e a criação uma só e mesma coisa. Nesta mesma época, século XVII, Leibniz apresentava o seu monismo com base na monadologia, seguido por Berkeley e Rudolf Hermann Lotze. A enteléquia de Leibniz definiu a unidade monádica como o componente básico e divino de toda e qualquer realidade física ou anímica, caracterizada por inteligência, imaterialidade, indivisibilidade e eternidade, aproximando-se do monismo substancial de Ubaldi.

No século XVIII, George Berkeley, o famoso filósofo irlandês, formulou sua doutrina considerada também monista idealista, baseando-se na percepção mental como única realidade que a tudo permite existir.

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