Breve História do Monismo (1)

gilson

Artigo de autoria do Dr. Gilson Freire, da cidade de Nova Lima (MG), que dividiremos em 5 partes para uma melhor reflexão sobre o tema apresentado e estudado: O MONISMO

1ª Parte:

O universo é regido por um princípio único.       P. Ubaldi (A Grande Síntese)

Definimos o monismo, em seu aspecto filosófico mais abrangente, como o substrato ideológico que apregoa a existência de uma substância única, subordinada a princípios também unitários, na composição de tudo o que existe no universo. Em seu significado mais simples, monismo é a doutrina da unidade, cuja palavra advém do grego monás que designava, na filosofia pitagórica, “toda complexidade que se faz um todo coeso”. Ela se opõe ao dualismo que admite a existência de duas entidades independentes na criação – espírito e matéria – e ao pluralismo, o qual adota a diversidade de fundamentos e de substâncias para se explicar o universo.

O dualismo é classicamente defendido por René Descartes e o pluralismo compõe o complexo pensamento científico moderno que, pela análise reducionista, fragmentou a realidade objetiva nas múltiplas e mais variadas expressões fenomênicas que, até o momento, se pôde produzir, muitas destituídas do mínimo senso crítico, por se fundamentar no vazio e no niilismo.

Assumindo-o como constructo norteador de sua obra literária, o monismo não é uma criação de Pietro Ubaldi, pois as ideias unicistas sempre ventilaram as concepções humanas e são encontradas em todas as épocas do desenvolvimento de nossa história.

 A milenar cultura chinesa do taoísmo já o apregoava em seus encantadores versos. Nas doutrinas hindus, o Vedanta Sutra já o anunciava ao ensinar que a essência bramânica, unitária, onisciente e perfeita, era a substância formadora das almas individuais e do universo. Seguindo o seu enunciado, a escola vaishnava, defendida por Ramanuja no século XII da era cristã, criou o termo visishtadvaita, com o exato significado de monismo, tal como o entendemos hoje. Curiosamente essa escola defendia que os elementos criados passaram a abrigar a imperfeição, causa da ignorância, sem explicar os motivos de tal contaminação da substância bramânica, mas que eles poderiam, através da devoção, refazer a comunhão perfeita com Brahma, sem perder a individualidade, preceito muito semelhante ao difundido pelo cristianismo.

Na filosofia grega, tanto a pré-socrática quanto a pós-clássica, o monismo já era uma aspiração dos principais pensadores, que buscavam compreender a diversidade de todas as coisas a partir de uma única causa primária. Interpretada às vezes como physis, a natureza formadora, ápeíron, a substância ilimitada, ou simplesmente o arqué, o princípio originário, todos procuravam representar o que seria essa substância fundamental, compondo o que os estudiosos da filosofia denominaram monismo corporalista.

Recordemos que, para Tales, o arqué seria a água; para Heráclito, o fogo. Anaxímenes, contudo, o julgou ser o ar. Mas, prenunciando o pluralismo, Empédocles estabeleceu que a igualdade dos princípios (isonomia) teria se dividido em quatro raízes, o ar, o fogo, a água e a terra, de cujas misturas se formava a multiplicidade do universo, embalada pelas forças do amor (philia) e da rivalidade (neikos). A doutrina eleática, fundada por Xenófanes e defendida, sobretudo, por Parmênides, apregoava a unidade e a imobilidade como fonte do ser e do universo. Para Anaxágoras, fervoroso seguidor da doutrina eleática, uma substância incorpórea, denominada noûs, eterna e imutável, embora submetida à aparência dos movimentos de nascimento e morte, teria gerado tudo o que existe. E Demócrito, finalmente, firmou o monismo atomista como base da realidade, concebendo o estofo do universo formado por unidades simples, corpóreas, indivisíveis e descontínuas, os átomos. Infinitamente espalhados em meio a um espaço contínuo e vazio, estariam subjugados a determinismos puramente mecanicistas, antecipando, no século V a.C., o ateísmo moderno.

A Idade Média não conheceu outra forma de monismo a não ser a Trindade Santa, concebida por Santo Agostinho, através da qual o Uno se consubstanciava no Todo e a ela nos referiremos a seguir. No Renascimento, o mais expressivo pensamento monista que se conhece foi veementemente defendido por Giordano Bruno e na Era Moderna, sobretudo pelos filósofos Spinoza, Berkeley, Hume e Hegel. Destarte, o mais influente monista conhecido até os nossos dias, tendo em vista que Ubaldi ainda é ignorado, é considerado Baruch Spinoza, que viveu no século XVII, embora em sua época não se empregasse tal acepção. O termo monismo foi usado pela primeira vez no século XVIII pelo filósofo Christian Wolff. Entretanto, aqueles que, de fato, o popularizaram foram o biólogo Ernst Haeckel e o químico Wilhelm Ostwald no início do século XX.

Segundo a natureza da substância apregoada como fundamental, o monismo pode ser diferenciado em diversos modelos, como o ontológico, o panteísta, o metafísico, o religioso, o material, o lógico, o gnosiológico e alguns outros de interesse menor para o nosso estudo. Tipos que se podem considerar incluídos em suas duas grandes e principais vertentes, em nítida oposição: o monismo materialista e o monismo idealista. O primeiro se fundamenta no fato de que toda a existência se reduz à matéria e seus atributos. Os seres vivos, por exemplo, se explicariam unicamente pelo funcionamento dos fenômenos físico-químicos existentes na unidade orgânica e a própria consciência humana nada mais seria do que o produto das ações e interações bioquímicas da massa neuronal (ideia também chamada epifenomenismo). Os grandes representantes do monismo materialista, normalmente ventilado por sentimentos anti-religiosos, foram Thomas Hobbes, Diderot, Paul Henri Dietrich, Pierre Maupertuis, Julien Offroy de la Mettrie, Karl Marx, Engels, Lênin e outros.

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