O conceito de Deus

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O conceito que de Deus e respectiva ética nos oferecem as religiões atuais, corresponde ao grau de amadurecimento evolutivo atingido pela humanidade atual. Esse é o único conceito que as religiões nos podem oferecer, porque é o único que a maioria pode entender, o único com que ela concorda porque, não importa se atrasado, ele corresponde aos seus instintos naturais.

A ideia de Deus que o homem possui, herdada do passado, é sobretudo a do todo-poderoso, que por isso pode fazer o que quer, arbitrariamente violando à vontade as leis que Ele próprio estabeleceu para o funcionamento da fenomenologia universal.

Um Deus com qualidades humanas, de dominador rebelde, cujo poder se realiza e se manifesta impondo, qualquer que ela seja, a sua vontade a todos, cioso dos rivais e egoisticamente preocupado só em dominar e ser obedecido pelos seus súditos.  O poder Dele não está na ordem, mas na violação da ordem. Mas esse é o poder da revolta que gera desordem e destruição, representa o poder negativo do anti-Deus, e não o positivo de Deus.

Tal Deus faz milagres, contrapondo-se arbitrariamente à Sua própria ordem, o que leva ao absurdo de uma contradição, possível na criatura que se revolta contra Deus, mas inadmissível em Deus, que neste caso se revoltaria contra Si próprio.

Esse Deus favorece quem quer, com a Sua graça, infringindo o Seu princípio de justiça. Ele cria do nada as almas e, pelos Seus imperscrutáveis desígnios, as envia a viver na Terra em condições bem diferentes uma da outra, muitas vezes em condições de sofrimentos diversos, sem que elas saibam o porquê dessa diferença e de tal condenação.

Esse Deus pode fazer qualquer coisa, pelo direito do mais forte, na mais desordenada e injustificável arbitrariedade, e a criatura tem de obedecer cegamente sem ter o direito de saber, obedecer, não porque entendeu e aceita convencida, mas porque constrangida pelo cálculo egoísta do terror do inferno a fugir e da cobiça do paraíso a ganhar. Entender não é possível, é até proibido, porque é ousadia querer desvendar os mistérios. Não resta, então, senão fé cega, terror, ignorância.

De tudo isto não se pode culpar ninguém, porque não foi feito com propósito de maldade. Tal é o nível evolutivo do homem que não sabe conceber e funcionar com outra forma mental. Mas é lógico que assim saia uma concepção da ética, isto é, uma moral egoísta, de arbítrio, baseada no mesmo princípio da força, que autoriza Deus a mandar, ou da astúcia, que ajuda o homem a se evadir daquele comando. Essa é uma posição falsa e emborcada da ética.

Esta ética representa o triunfo do involuído, que tudo criou no seu mundo para si, à sua imagem e semelhança. No seu plano involutivo, tudo é regido pela lei da luta, pela seleção do mais forte e pelos instintos que ela constrangeu o homem a desenvolver, não sendo  possível apoiar-se na inteligência e exigir que ela funcione, quando ainda não está suficientemente desenvolvida.

Se o conceito de Deus é esse bem terreno de um patrão que manda e pune quem lhe não obedece, só pelo direito que lhe vem da sua força de todo-poderoso, a lógica posição do fiel é, por equilíbrio e defesa da vida, a do criado que procura evadir-se, seja amansando a ira do patrão, que ele provocou com a sua desobediência (para isso fazendo preces, arrependimentos, promessas, mesmo que mentirosas para arrancar o perdão, ofertas, honras etc.), seja procurando subtrair-se à dura lei do patrão com enganos e todas as escapatórias possíveis.

Essa atitude é fatal consequência dessa posição, em que o homem se coloca perante Deus, de antagonismo e não de fusão de interesses, posição devida ao estado de revolta, na qual, pela queda, a criatura se encontra perante o Criador.

Explica-se desse modo a estrutura das atuais religiões, feitas sobretudo de práticas exteriores, fáceis de realizar com pouco sacrifício, sem incomodar no que mais interessa, que é a liberdade na sua própria conduta, deixando a cada um a possibilidade de satisfazer os seus instintos e fazer os seus negócios.

É reconhecido, desta maneira, e respeitado o direito de pecar, isto é, de violar a Lei, coisa que constitui sempre a grande atração dos primitivos que formam a maioria. Em vez de ter, inexoravelmente, de pagar aquelas consequências até ao último ceitil em outras encarnações, sem escapatória possível, é lógico que convém mais rezar uma leve penitência e, com um provisório e relativo arrependimento, de fortuita duração, considerarem-se quites, prontos a repetir, continuando assim a satisfazer-se.

Permanece com tal método, o defeito de que ele é um engano que o homem quereria praticar à custa da justiça de Deus, mas que acaba recaindo sobre o culpado, que nem por isso poderá escapar àquela justiça, e que terá de pagar da mesma forma a sua dívida, e isto sem entender nada, nas reencarnações futuras.

Nem Deus aparece na Terra para esclarecer e impor à força a Sua Lei, mas deixa que o ser a descubra experimentando à sua custa, onde terá de pagar com o seu sofrimento o preço da sua ignorância.

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