COMO FALA A VIDA (III)

 

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O Homem, o animal e o seu Semelhante

O homem se voltou, então, para um animal que avidamente espreitava a presa, dizendo-lhe:

– “Por que este assalto contínuo?

Vós, animais, sois superiores às plantas, tendes liberdade para correr e voar, possuís olhos e ouvidos, tato e olfato, muitos sentidos e possibilidades desconhecidas pelas plantas. Por que permaneceis sob a lei feroz desta, que vos é tão inferior?”

E a voz da vida replicou:

– “Se nós somos superiores à planta, e mais coisas podemos perceber, não temos, porém, liberdade para agir. A nossa vida acumula experiências sensórias, mas não temos, como tens, as que chamas de experiências morais e espirituais.

Não somos livres para escolher, devendo seguir fatalmente a lei que nos impele sempre nesse caminho, fazendo-nos agir assim. Nós nos alimentamos, procriamos, vivemos quase mecanicamente, como quer uma lei que desconhecemos.

Esta é toda a nossa vida e outra não conhecemos. Que pretendes acrescentar? Esta é a nossa experimentação, é a lição que devemos aprender. Dessa forma, tudo vai bem para nós. Estando em plano mais elevado, podes viver assim.

Se nos levares para vivermos contigo, poderás modificar-nos, domesticando-nos. Todavia, permanecerás sempre distante, porque não podemos seguir-te”.

Em seguida, o animal fugiu em perseguição da presa, seguindo cegamente o seu instinto.

O homem voltou-se, então, para um seu semelhante e lhe disse:

– “Eis finalmente um igual a mim. Resumes todos os seres com que tenho falado até agora. Tens as férreas leis físicas do vento, a sabedoria vegetativa da planta, os sentidos e o instinto do animal, além de uma qualidade nova – a tua liberdade de escolha, o mundo moral com as suas consequências. Tu, que dispões de tudo, por que não és perfeito, por que caís em culpa?”

O homem respondeu:

– “Caio, porque não sou perfeito. Se peco, é exatamente porque possuo uma qualidade nova. Sou livre, tenho responsabilidade e o direito de escolher”.

O animal é mecanicamente sincero na sua ferocidade e não peca, pois que não dispõe de liberdade; não compreende e não pode escolher. A sua visão não se eleva acima de sua Lei, simples, quase mecânica. Eu a domino porque vejo de mais alto, mas ele está encerrado nela. Menos sujeito a errar, é um autômato movido por uma mais profunda sabedoria, que não é sua, mas que tudo sabe.

Devo aprender a manejar uma potência diversa, diretora, o que implica lutas que o animal ignora. Devo viver a Lei de Deus, não como cego instrumento constrangido por impulsos íntimos, através dos quais a Lei se faz presente, mas devo vivê-la por livre escolha para assim chegar a compreender a lógica e a bondade dessa Lei e, dessa maneira, tornar-me consciente dela.

Esta é a minha experimentação e, se cada um tem a sua lição, esta e a lição que devo aprender.

A Lei é única para todos, mas é diverso, segundo os planos evolutivos, o conhecimento que o ser atinge dela. Os elementos, a planta, os animais, aplicam-na em graus diversos, sem nada saber a seu respeito. Só o homem consegue conhecê-la, para livremente segui-la, depois de ter tomado consciência dela, um instrumento, espontâneo executor, porque compreendeu que só nessa ordem está o seu bem e a felicidade.

“A minha vida é dura e difícil, repleta de fadigas e esforços, de abismos que a mecânica do instinto ignora. O animal obedece cegamente, até à brutalidade, às leis da fome e do amor e não pode superá-las.

O homem, mesmo sentindo-as prepotentes, como as sente o animal, tem pela superior natureza humana, possibilidade que ele não possui, de sobrepor-se-lhes e subjugá-las: pode completar a catarse biológica ignorada pelo animal, do herói, do gênio, do santo, do místico, que o conduz a um plano de vida ainda mais elevado, no qual as conhecidas características da animalidade são subjugadas e, vencidas.

Se no homem ainda sobrevive a besta, já existe em germe o anjo. O homem sofre e luta justamente para desenvolver em si esse germe e tornar-se anjo.

Essa é a fase evolutiva que me compete viver.

Se, por isso, eu posso errar muito mais do que o animal, porque sou livre também sofrendo posso aprender muito mais do que ele, através de lições que de modo nenhum ele pode conhecer. Enquanto a sabedoria do animal consiste em aguçar os sentidos e as possibilidades físicas, e nisto está toda a expressão de sua vida, eu aguço os sentidos, os meios morais e espirituais, cuidando cada vez mais destes últimos. Quando o animal tiver conseguido ver e ouvir de mais longe, a farejar com maior delicadeza, para assim vencer com meios cada vez mal perfeitos a luta pela vida, terá assim aprendido completamente a lição.

Eu terei aprendido a minha somente quando tiver conseguido ver e ouvir com maior bondade e justiça para todos, para vencer a luta pela vida, não destruindo o meu semelhante, mas com ele coordenando-me e colaborando na ordem divina”.

(continua…)

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