I – COMO FALA A VIDA (II)

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O Homem e o vegetal

O homem voltou-se então para uma planta que, cheia de folhas e de espinhos, havia invadido todo o espaço livre ao sol, sufocando as plantas vizinhas, e lhe disse:

“Por que és assim egoísta e malvada, prejudicando os teus semelhantes vizinhos, para que tu sozinha possas viver?”

“Malvada, egoísta?” – respondeu a planta e continuou: Que significam estas palavras?

É natural que eu cuide apenas da minha vida, da mesma forma que os outros só cuidam da sua. Não tenho que viver? Possuo o mesmo direito que os outros. Por que deveria preocupar-me com eles, se não se preocupam comigo? Por que evitar sufocá-los, se eles estão sempre prontos a fazer isso contra mim, em seu proveito?

Se possuo os meus acúleos, é porque por mim mesma aprendi a formá-los, a fim de que os animais não me comam e mãos como as tuas não me arranquem da terra. Como poderia agir de outra forma para defender-me e para fazer-vos compreender o meu direito de viver, senão através do vosso dano, único ao qual sois sensível?

Se quiser viver, esta defesa é necessária. Por minha conta tive de aprender que não me resta outro modo de viver. Tudo isto foi o que a vida, com a sua dura escola, me constrangeu a aprender e tu sabes que todo ser deve aprender a sua lição.

O homem acrescentou:

“Mas, por que não procuras compreender, além da tua vida, também a vida dos teus semelhantes, para que haja lugar para todos e todos possam viver?”

E a voz da vida, respondeu:

“Mas, compreenderão porventura, os outros a minha? Somos inimigos, rivais. O lugar ao sol existe para os vencedores. A vida certamente se defende, mas através do meu trabalho, pois devo aprender a vencer por mim mesma. Essa é a lição que a vida me impõe. Não existem em meu mundo o que chamas piedade e bondade. Há somente a férrea justiça do mais forte. Este é o melhor entre os de seu nível, sendo justo que ele vença. Se me transportares para um ambiente protegido, então eu me domesticarei e perderei os espinhos. Mas, assim civilizada, eu me enfraqueço e, se me abandonares, morrerei. Desta forma, vês que a minha rudeza é necessária e obrigatória, pelo menos enquanto eu estiver entregue a mim mesma.

Cabe a ti, que te encontras em nível superior e possuís meios para melhor compreensão, e não a mim, fazer com que existam no mundo piedade e bondade. Executo honestamente a minha parte de trabalho no organismo universal, produzindo a síntese química da vida do mundo inorgânico.

O resto exorbita ao meu labor. Cumpro assim a minha função na ordem das coisas, evidentemente no meu nível.

Não me podes pedir mais.

(continua…)

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